PIMENTA E COCA-COLA

Existem duas formas mais ou menos descaradas de nos metermos em bicos de pés, superiorizando-nos de alguma forma aos outros. A mais descarada é dizer a coisa de caras: sou o/a maior e não há ninguém que me convença do contrário. A menos descarada, pelo menos à primeira vista, consiste em dizer a coisa de esguelha: todos os/as outros/as são inferiores por isto ou por aquilo (por uma questão lógica, se os/as outros/as são inferiores quem aponta essa inferioridade superioriza-se do ponto de vista teórico, por comparação).

 

Quem se assume superior de forma descarada costuma merecer de imediato os rótulos mais à mão para mimosear tal descaramento. Arrogante, convencido/a e por aí fora que a malta não admite esse tipo de vaidades assumidas seja a quem for.

Contudo, quem opta pela outra via (a de cernelha) costuma ser poupado/a às reacções hostis dos papalvos que não topam logo a jogada e até se solidarizam com a pessoa tão expedita a detectar as falhas e defeitos alheios.
Papas e bolos, no fundo.

 

Claro que tudo isto da superioridade se esvai quando percebemos que todos nos sentamos numa sanita algures em cada dia e a todos a crista murcha quando a mísera condição humana nos é esfregada nas ventas com um percalço qualquer que nos exponha a fragilidade, a precariedade de qualquer conjuntura favorável que pode sumir num instante.
Ou seja, somos superiores a nada e a ninguém ainda que aqui e além consigamos a vitória pontual ou qualquer outro ascendente momentâneo que se pode esgotar num ápice ou nem chegar a valer aquilo que pensamos.

Feitas as contas, a superioridade faz parte do que enterramos no chão quando acaba o pavio. Todos iguais, mais terra menos terra, mais pedra menos pedra.

 

No entanto, não faltam (por exemplo) na blogosfera as pessoas hábeis em tornear o descaramento (e a insensatez) de se presumirem superiores com base na tal estratégia subversiva de esmiuçarem tudo quanto lhes soa menos bom (inferior) nos seus pares. E recolhem dividendos junto das legiões de gente embasbacada perante tamanhos fenómenos de argúcia e de lucidez, gente anestesiada pela falinha mansa (ou nem por isso) de falsos/as humildes que ocupam o pedestal daqueles/as que derrubam com a perspicácia e capacidade de observação superiores que assim manifestam.
É tolo, visto desta forma. Mas continua a ser tolo visto de qualquer outra.

 

Nem é preciso um esforço de raciocínio superior (lá está...) para lá chegar, a essa conclusão irritante para muitos/as. A superioridade é sempre temporária e relativa, estupidamente subjectiva. E por isso ninguém a pode reclamar, mesmo sob a capa protectora da pedra lançada aos telhados de outrem, sob pena de um dia se escaqueirar a pala. E acreditem que sei do que estou a falar, não me superiorizo seja a quem for nessa matéria nem arrisco tirar o cavalinho da chuva no que respeita às tentações levianas que um simples complexo de superioridade descontrolado ou de inferioridade mal encaixado podem suscitar.

 

Sei, dessa forma, que esta posta constitui por si só um exemplo flagrante de tudo quanto nela afirmei. A lógica funciona assim, com a dinâmica bumerangue que qualquer raciocínio consegue produzir.
Mas aceito com humildade desmascarar-me na condição de imbecil armado ao pingarelho, apontando nos outros aquilo que sinto como um defeito e assim arriscando obter o tal dividendo do reconhecimento que nada fiz por merecer na ocasião.

 

A diferença, a minha tábua de salvação, reside apenas no esforço titânico para sacudir do capote qualquer tipo de ambição de natureza elevatória. Não sou melhor que ninguém e quem me dera conseguir manter um nível à altura de muita gente que respeito e admiro ao ponto de rejeitar aceitá-los/as superiores.

publicado por shark às 18:52 | linque da posta | sou todo ouvidos