SEM MEDO

O célebre caricaturista dinamarquês cujo trabalho virou do avesso os fundamentalistas islâmicos de todo o planeta esteve perto da morte quando lhe entrou um somali em casa com intenção de fazer a justiça habitual de quem aceita o terrorismo como forma de luta legítima.

Salvou-se por ter tido o cuidado de manter na casa uma divisão estanque que lhe permitiu sobreviver em segurança com a neta até a polícia chegar.

Por pouco, os canalhas que não queremos de todo perto das nossas vidas conseguiam mais uma vitória do medo que sonham impor pela força do fanatismo que de religioso só tem o nome.

 

Fui um dos que deram uma no cravo e outra na ferradura quando esta situação das caricaturas se revelou. Se por um lado considerei excessivas e desrespeitosas o bastante para chocar quem possui a fé visada, pelo outro não creio que a liberdade de expressão possa ser negociada em função dos melindres de alguém. E os abusos, a existirem, deverão ser condenados num tribunal, com as devidas proporções, e nunca da forma que os radicais pretendem impor desde o precedente aberto com Salmon Rushdie que lhes denuncia a vontade de intimidar pelo medo quem se opõe à sua visão do mundo ou simplesmente a interpreta com uma perspectiva contrária à dos assassinos que dela se servem para impor o seu reino de terror.

 

E é esta a escala de valores que define a minha prioridade num assunto que nada tem de pacífico mas tem mesmo que se debater, sob pena de o medo prevalecer sob a ameaça seja de quem for.

Se não pactuo de todo com os excessos que a liberdade permita, ainda menos tolero as restrições impostas pela força bruta, pela intimidação por parte de gente sem escrúpulos capaz de produzir chacinas como a de Atocha ou a do World Trade Center.

Jamais me ocorreria querer matar um muçulmano por caricaturar o profeta católico e acredito que esta educação ocidental que me inibe de aceitar tal idiotice não pode ser refém de bandoleiros, quaisquer que sejam as respectivas motivações.

 

Tal como aconteceu no episódio do avião que um fanático nigeriano quase fez explodir, este capítulo da vergonhosa fatwa que uma minoria de psicopatas e de lunáticos tenta espalhar entre os crentes da sua fé como um objectivo decente e até glorioso terminou com um final feliz.

Se entreabrirmos sequer a porta à lei da selva, à justiça pelas próprias mãos, estaremos a entregar de bandeja a nossa liberdade ao poder do terror. Sob pretexto algum podemos confundir a razão por detrás da reacção violenta e desesperada de um povo, seja qual for, com alguma espécie de tolerância para com ataques a civis inocentes que apenas servem para estimular o medo que nos transformaria aos poucos neles mesmos, embora com outros meios ao alcance para retaliar neste momento da História.

 

Nenhuma guerra é santa, tal como nenhum fim justifica determinados meios.

Pessoas são pessoas e a fé só move alguns sendo que mesmo esses sabem que nenhum deus subscreveria a matança como solução.

 

Tudo o resto, qualquer teoria rebuscada que seja formulada em função desta ou daquela simpatia ideológica ou outra não passa de retórica perigosa por instigar fenómenos sem nexo em qualquer dos lados desta barreira artificial que pretendem alimentar entre duas religiões cuja maioria dos fiéis deixa bem claro seu repúdio a falsas divisões que o mundo moderno não justifica.

 

Matar é errado e qualquer livro sagrado o deixa bem claro a quem o souber ler.

E isto vale para qualquer pessoa, sob qualquer bandeira ou fé.

 

 

 

publicado por shark às 20:27 | linque da posta | sou todo ouvidos