À ESPERA NO CAIS

À espera do nevoeiro, encostado a um candeeiro apagado, cigarro aceso ao pendurão numa boca sem vontade de falar.
À espera de uma história para contar aos netos ou apenas a transeuntes inquietos pela loucura que transparece do olhar.

 

Ausente, naquela figura de corpo presente encostado, em parte incerta, acordado na aparência mas em perda de consciência em câmara lenta no interior da cabeça a latejar. A loucura desenhada no olhar pela luz distante de um farol que não oferece salvação ao náufrago daquela embarcação encalhada numa vida desgraçada à entrada do porto de abrigo que não lhe concedeu.

 

À espera da queda do céu, ainda que parcial, sob um manto de bruma para camuflar os demónios convidados a testemunhar o momento de uma estrela do firmamento desabar sobre a cabeça demente.
À espera de alguém sempre ausente, a fada madrinha que lhe enfie com violência a varinha por um ouvido para acabar com a saudade pela ausência, com a dor de uma perda ou de um desgosto de amor, trauteando uma serenata coimbrã.

 

Presente, no passado que lembra diferente mas nada lhe garante ainda recordar amanhã.

Tags:
publicado por shark às 19:45 | linque da posta | sou todo ouvidos