SITIADO

Tentou controlar a dor lancinante enquanto extraía do peito a seta envenenada com sentimentos contraditórios, a seta disparada pelo inimigo oculto no perímetro que tentava a custo defender.
Recusava-se a deixar morrer tudo aquilo pelo qual lutara, a esvaziar de sentido tudo o que perdera ao longo de um caminho infestado de emboscadas que o enfraqueciam mas nunca o conseguiam desarmar.

 

Preferia sempre avançar, cicatrizando as feridas no trajecto. Sentia-se cada vez mais perto do lugar que lhe competia conquistar e essa força poderosa funcionava como feitiçaria e ele abraçava a magia como uma tábua de salvação enquanto enfrentava a ondulação de um mar de tormentas. Com o medo controlado, o destino traçado não admitia recuos ou desvios e a cada passo tornava-se mais forte, capaz de desafiar a sorte e prevalecer.

 

Acreditava-se capaz de vencer até ao momento em que uma armadilha do tempo, que tinha como aliado, o surpreender. E agora tentava controlar a dor, ferido, num campo de batalha devastado que era o derradeiro bastião a defender. Queria continuar a combater pela causa que tantas vezes se anunciava perdida, deixar sarar mais uma ferida e seguir em frente até ao objectivo distante que agora lhe fugia sob os pés com a verdade inoculada por aquela seta envenenada que o atingira tão perto do coração, uma seta disparada à traição que o prostrou mais do que nunca naquela guerra sem quartel.

 

Ajoelhado no meio do seu mundo, sentia agora gelado, moribundo, o corpo virtual com que combatia todo o mal que o afligia sem cessar. Faltava-lhe a força para lutar contra um inimigo invisível, um obstáculo intransponível que se erguia diante de si como um guerreiro gigante, colossal. Dentro do perímetro sagrado, afinal. Aquele que jurara proteger sem jamais conceber a hipótese da derrota.
No mar afundava-se a frota e no céu já não distinguia os anjos que antes cerravam fileiras contra os demónios que o puxavam debaixo do chão e o arrastavam para a punição destinada a quem ousasse enfrentar os males do mundo, o tentavam levar para o buraco sem fundo de onde nunca mais pudesse sair.

 

Atordoado, tentou ainda assim reagir com a força que lhe restava. Ergueu no ar a sua espada e olhou de frente o adversário temível, com uma resistência impossível de entender por parte de quem o queria dissuadir de tentar, de insistir.

E enquanto o tempo passava, beneficiado pelo efeito surpresa, recuperou a força e a certeza necessárias para contra-atacar, com a coragem que fingia faltar sempre que parecia bater em retirada.


Porém, apenas pretendia ludibriado o oponente. Quando seguia, de novo, em frente o inimigo vacilava e sentia que era possível a vitória final.

Porque combatia por amor. E a esse, clarividente ou ingénuo, acreditava-o imortal.

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publicado por shark às 20:48 | linque da posta | sou todo ouvidos