A POSTA SEM MURALHAS

Sempre entendi a cumplicidade como um dos requisitos fundamentais de uma relação de amizade ou de amor. Nem entendo uma relação enquanto tal, envolvendo as emoções superiores, se não existir essa ligação tão próxima que pressupõe a ausência de segredos, a partilha de dores e de alegrias, a disponibilidade permanente para acudir em qualquer tipo de anseio ou de aflição.

 

É extremada, bem o sei, esta minha posição. Afasta pessoas. Ninguém aceita de bom grado abrir os portões do seu castelo interior seja a quem for nos dias que correm, apenas se entreabrem nesgas nas pequenas fissuras a que nem podemos chamar janelas e só por aí pode sair ou entrar aquilo que urge filtrar para não nos sentirmos vulneráveis.

Sim, falo no plural pois também eu acabo por vestir aos poucos essa couraça, essa muralha que nos isola do outro que se torna insuportável quando nos expõe, mesmo com boas intenções, as debilidades e fraquezas que mais tememos e mais queremos ignorar.
Mas esse é o princípio do fim da tal proximidade cúmplice, criando laços que funcionam entre as pessoas como uma espécie de canal do Panamá que abre e fecha, que sobe e desce em função das conveniências individuais.


Navegamos até onde nos deixam e só quando nos interessa deixamos abrir as comportas...

O amor e a amizade como as penso e as sinto não podem funcionar assim. É algo de muito importante para mim, sentir-me especial no contexto de uma relação com alguém. Tanto quanto transmitir essa distinção às poucas pessoas a quem permito a entrada na fortaleza imaginária que também me vi obrigado a construir para me defender de canalhas que aproveitaram as defesas desguarnecidas para me destruírem a confiança, outro pilar essencial da cumplicidade que advogo e tento impor sem sucesso na esmagadora maioria das minhas relações.


O silêncio forçado, imposto, é uma gangrena pior ainda do que uma explosão disparatada na qual se diz muita coisa que não corresponde ao que sentimos de facto.

A impotência a que nos reduzem quando se fecham na concha sem explicações razoáveis só tem paralelo na dúvida que se instala acerca da verdadeira dimensão do nosso papel nessas outras vidas que aqui e além decidem alhear-se da nossa, em intermitências que abrem caminho a todo o tipo de especulação.

 

E essa é uma inevitável tentação quando às nossas interrogações apenas correspondem más ondas que sentimos, quando as relações são sérias e importantes, como profundas desilusões.

publicado por shark às 18:18 | linque da posta | sou todo ouvidos