PH NEUTRO

Eu sei que há umas décadas atrás correria o risco de escrever pharmácia, mas continuo sem pachorra nenhuma para o acordo ortográfico e é um facto (sem gravata) que terei que me assumir arcaico na escrita e velho do restelo no que respeita a esta idiotice talhada para me enervar ainda mais do que o desaparecimento dos contos de réis.

 

Contudo, e para contrabalançar, sou um dos poucos cidadãos a quem os pruridos relativos ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, à adopção por parte desses casais nem aquece nem arrefece.

É mesmo uma questão simples para mim. No que respeita ao sexo, ao amor e a tudo quanto diz respeito a direitos, liberdades e garantias não há géneros. Em nada me atormenta o casamento que formaliza uma união que de facto o é, entre pessoas (o assunto morre aqui) do mesmo sexo (isto é um detalhe que só chateia empatas).

E ainda menos me preocupa o direito a pessoas adoptarem crianças se for clara a sua aptidão para o acto.

 

Era só o que faltava, sentir-me no direito de proibir (ou mesmo julgar) seja quem for de usufruir de direitos que temos enquanto cidadãos e não perdemos em função das nossas preferências sexuais tal como em função do nosso estatuto de fumadores.

Só quem nunca visitou um orfanato ou não consegue vestir a pele de uma criança entregue a essas generosas (mas impotentes) instituições pode beliscar sequer o mérito de uma legislação que abra as portas à adopção por parte de mais pessoas e, note-se, mais interessadas por todos os motivos em darem o seu melhor para se provarem capazes perante esta sociedade de responsabilidade ilimitada no que concerne à castração da felicidade do outro.

 

Quando, daqui a uns anos, for gozado, marginalizado até, por me recusar a deixar cair os cês e os pês (tal como já vai acontecendo quando falo em cinco contos no lugar de 25 euros) que mesmo a associação dos professores de português tem pressa em ver imposto (o malfadado - malfodido?- acordo) irei sentir na pele essa tendência(zinha) portuga para buzinar as diferenças dos outros (outros são toda e qualquer minoria).

 

Mas para já, que ainda posso adoptar sem restrições a língua pátria que me ensinaram e as crianças que bem gostaria de poder ajudar a crescer num país livre destas merdas, sinto-me feliz com o facto de o Governo que escolhi ter na mesma altura acabado com uma vaca sagrada dos botas de elástico (a proibição dos casamentos entre homossexuais) e adiado a aplicação do cavalo de batalha daqueles para quem a adoção de uma nova língua é de fato uma coisa muito modernaça (ou agora é com dois ésses?).

publicado por shark às 14:09 | linque da posta | sou todo ouvidos