VETERANO DE 69

Sim, eu acordei com o abanão. Seis na escala de Richter, o bastante para me assarapantar a meio de um sono profundo.
No meu tempo de vida experimentei por meia dúzia de vezes a sensação desagradável de o chão se transformar em água (no movimento) e de o tecto se tornar subitamente uma ameaça potencial. Um exagero, bem o sei, mas cada um tem os seus medos.
E o maior dos meus decidiu dar-me um olá nesta madrugada fria...

 

Muita gente, sobretudo no Algarve (o epicentro foi na zona do Cabo de São Vicente), acordou como eu com aquele que, na minha estatística pessoal, foi o segundo mais prolongado e o terceiro mais intenso tremor de terra que experimentei.
Uma coisinha de nada, apenas o bastante para agitar o corpo no colchão. O desta noite foi suave na oscilação e nada caiu das prateleiras. Mas foi o bastante para me reavivar de forma instantânea a cábula dos procedimentos a tomar mais as atitudes a evitar em tais circunstâncias, pois nunca se sabe quando os abalos mansinhos anunciam o pior para vir.

 

Eu estava mesmo a dormir quando a terra começou a oscilar e acordei. Algo em mim, um receio instintivo que descobri em 69 (estavam a pensar o quê, quanto ao título da posta? Na Guerra do Ultramar, "amor de mãe"?) quando sem saber sequer que os sismos existiam acordei com o maior que Lisboa sentiu no século passado.
Um candeeiro com pingentes em vidro que se fingiam cristal, imitação de classe média baixa dos candelabros de palácios e chalés muito em voga na época (os candeeiros), começou a tocar uma música estranha inspirada pelo balanço do edifício.


Claro que já nessa altura, bem pequeno, manifestei a inteligência rara que ainda hoje me caracteriza e entendi que o local mais seguro para enfrentar a situação seria debaixo dos lençóis (continuo a apreciar particularmente o conforto desse refúgio), acabando por pregar um cagaço no meu pai que, no meio da confusão, não percebeu de imediato que eu já estava a salvo junto aos pés da cama quando chegou para me resgatar daquele pesadelo.

Desceu do quinto andar comigo ao colo, em cuecas, e foi assim que desembocou no meio da vizinhança em pijama e roupão, pronto para embicar para o aeroporto (o ponto de referência que diziam ser o mais seguro para enfrentar cataclismos daquela natureza) a bordo de um Fiat 850 com uma cor inenarrável.
Aprendi nessa madrugada várias lições que fui reforçando ao longo da vida, fascinado com o tema. Sim, vi o filme em sensurround com o Charlton Heston, no São Jorge. E sim, prefiro dez consultas non stop no dentista a repetir essa experiência foleira que só vivi em Lisboa e em Mombaça (o segundo mais forte mas sem dúvida o mais curto do meu top five, ao ponto de mais ninguém á minha volta o ter percebido na condição).

 

O ano de 69 ficou assim gravado na minha memória até que me cortem a corrente aos neurónios e serve de referência, de marco histórico que muito me marcou (em vários sentidos) e me incutiu este alarme interior que dispara à mínima abanadela.

 

Foi fraquito, eu sei. Mas bastou para me interromper um sonho no qual, às tantas, até poderia existir uma bizarra premonição por associação de ideias...

Tags:
publicado por shark às 10:15 | linque da posta | sou todo ouvidos