O CIRCO DAS FERAS

Eu gosto de pessoas desbocadas. Por norma são sinceras e não se põem com florinhas quando sentem vontade de desatinar.

Porém, sempre me deu a ideia de que existem alguns locais e funções para as quais essas pessoas não são compatíveis. Se calhar estou a ser um cota no discurso, a malta até aprecia umas cobóiadas e tem imensa piada ver os deputados da Coreia ou da Argentina ou assim de uma terra pequena e distante à porrada num hemiciclo. Os telejornais nunca falham essas cenas e a malta até pára de mastigar a entremeada no restaurante quando passam na tv esses números artísticos.

Mas se calhar sou só eu que não acho piada quando os protagonistas são pagos por mim e por outros papalvos para nos representarem de forma condigna nas instituições que nos governam.

 

Ouvir uma tia deputada chamar palhaço a um colega de outra bancada pode até dar vontade de rir. E dá com toda a certeza, se ambos estiverem num tasco em amena cavaqueira diante de um pires de caracóis. No entanto, vendo bem as coisas e tendo em conta a responsabilidade dos cargos que ocupam e o quanto nos custam em salários, mordomias, reformas chorudas e afins talvez às tantas um gajo perca um nadinha a vontade de arreganhar a tacha perante quem não sabe sequer respeitar as inerências do tacho que alguém, desmazeladamente, lhe disponibilizou.

E claro, ver o virgem ofendido a sugerir que a colega é uma meretriz ideológica também pode não cair bem, sobretudo quando um camarada seu já havia sugerido a esquizofrenia dos seus pares na oposição.

 

Ainda há dias o Primeiro-Ministro, farto das traquinices de um deputado chavalito, um tal de Portas, lhe dizia para ter juizinho ou coisa que o valha, tratando-o como um fedelho na escola. Isto passou-se no mesmo palco onde um Ministro da Economia também muito espontâneo e sincero simulou um par de cornos para brindar um deputado comuna que o incomodou, por coincidência no local de trabalho dos outros manjericos que citei no parágrafo acima.

E claro, ficou nos anais o desafio para a porrada entre dois deputados que se desentenderam em plena AR meses atrás.

 

Tudo isto que citei não faz parte do dia a dia político do Uzbequistão ou do Zimbabué, países onde os circos ainda podem recorrer a animais selvagens para divertir a audiência, mas sim numa nação integrada na União Europeia (a Europa dos ricos e tal...) e cheia de tiques e de vaidades associados a esse nobre estatuto.

 

E eu não consigo perceber se me incomoda mais o péssimo sinal do estado a que deixámos chegar as instituições que este circo instalado expõe ou o facto de fazer parte dos ursos e dos camelos contribuintes que, ficando de fora a assistir ao show, ficarão soterrados nos escombros no dia em que desabar a tenda.

 

 

publicado por shark às 11:56 | linque da posta