A POSTA NO LEITE DERRAMADO (OU NO CALDO ENTORNADO, TANTO FAZ)

Há um ponto a partir do qual é perfeitamente natural que se deitem às urtigas alguns pruridos e hesitações. Chamem-lhe crise da meia-idade, PDI ou outra coisa qualquer. Por mim até podem chamar-lhe um assobio, mas na prática trata-se de um momento de excepção para qualquer um/a que de repente percebe que a vida são dois dias, o carnaval são três e ao quarto uma pessoa descansa em paz e por isso não se pode renegar o tal ponto em que um impulso qualquer nos leva a passar por cima de algumas convenções e a abraçar uma forma menos tensa de enfrentar, por exemplo, os muitos proibidos que a vida em sociedade nos vai impondo.

 

Sempre tentei manter algum nível daquilo que a maioria apelida de sanidade mental mas para mim constitui apenas um conjunto de normas imbecis que só servem para atrapalhar os nossos caminhos e empatar as fadas que tanto se esforçam por nos mostrar como a vida é bela sem o espartilho dos costumes.
Isso não se deve fazer, aquilo não se pode dizer, apenas porque sim. E eu questiono-me sempre: e porque não?


Em causa estão aqueles compromissos assumidos por inerência mas que nunca entendemos muito bem para que servem se apenas nos complicam ainda mais o trocadilho. Coisas simples, como um gajo assumir algumas cenas suas ou borrifar-se na boa para as tradições que castram o prazer de viver aquilo que nos resta quando a juventude já ardeu.

Ah e tal, porque não devemos ser assim ou assado porque senão...
Mas porque senão o quê? Levamos tautau? Executam-nos uma penhora? Apontam-nos o dedo como maus exemplos a seguir?
Ora, esse não só é o lado para o qual eu durmo melhor como é também um lado que nunca me fez perder o sono. Tanto faz se me baptizam de excêntrico ou de maluco ou mesmo de radical.


Sou uma pessoa normal que se esforça por romper as barreiras artificiais que nos impõe a ditadura do politicamente correcto, do tanto melhor quanto mais discreto, que nos empurra para uma existência parcialmente clandestina em abono da mais perfeita integração no grande grupo que na hora da verdade nos vira as costas e nos deixa cair.

É assim, doa a quem doer, e eu já tenho calo o bastante para o afirmar com conhecimento de causa, com o saber de experiência feito que é a compensação para os estragos que a passagem do tempo entretanto provoca.
Ninguém me tente açaimar ou amordaçar quando à razão propriamente dita consigo somar uma porrada de argumentos para justificar as minhas opções sem medos ou vergonhas.
Vergonha é roubar ou, ainda pior, deixar-se apanhar em flagrante. E isso nunca me aconteceu.


Há um conjunto de merdinhas que define quem sou eu, aos olhos críticos dos outros mas acima de tudo aos meus, aqueles que confrontam o espelho e têm que se aguentar à bronca com o resultado final das minhas reflexões.

Abomino determinadas convenções que só servem para nos afastar da felicidade possível neste mundo cão. Violo deliberadamente as que mais me entravam o caminho e com isso vou adquirindo um estatuto semi-marginal em meia-dúzia de círculos onde a vida me encaixou.
Mas eu não sou um ponto fixo, estagnado, em círculo algum. Prefiro-me imprevisível, aleatório, igual a mim mesmo quando a mostarda me sobe ao nariz ou desatino com uma limitação disparatada.


Respeito apenas a liberdade dos outros de serem aquilo que lhes incutiram ou, raramente, aquilo que se sentem mais confortáveis a fazer (ou exibir). São escolhas individuais, decisões que tomamos em função daquilo a que nos podemos ou queremos permitir.
E a partir de um certo ponto no tempo, talvez como manifestação tardia de uma puberdade oprimida pelas regras impostas pelos pais, descobrimos uma faceta da maturidade que sentimos no peito como um momento libertador.

 

Eu quero viver o amor e a amizade e o resto que verdadeiramente importa de acordo com as minhas regras e fantasias, tal como exijo de mim próprio a contenção necessária para não deixar que o feitio irreverente comprometa em demasia o meu futuro profissional ou a integração social e é essa a contrapartida que me imponho, o esforço maior.
De tudo o resto retenho apenas o que me protege da rejeição absoluta por parte de muitos filhos da puta de quem dependo, ocasionalmente, por isto ou por aquilo e apenas até ao momento em que decido dizer basta à dependência ou à tradição. À bruta e sem lubrificação, pois pauto as minhas posições por um misto de instinto básico com o cuidado do respeito pela sensibilidade alheia, o freio embutido que me leva sempre a evitar cruzar os limites sem moderação.

 

Acho que é mais do que o suficiente para garantir o respeito e a consideração por parte de quem se cruze no meu caminho e entenda investir algum do seu tempo na avaliação deste gajo cheio de coisas estranhas e até perturbadoras para alguns mas igual a toda a gente nos méritos e nas qualidades que possam servir de compensação.

E quem não veja a coisa assim tem bom remédio e não faltam por aí cabeças mais atinadas para desbundar.

 

Prometo que não fico a chorar...

publicado por shark às 15:04 | linque da posta | sou todo ouvidos