SÃO LÉSBICAS SIM. E ATÃO?

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Foto: sharkinho

A minha posição acerca do assunto é esta: as duas mulheres que viram recusado o seu desejo de contraírem matrimónio têm mais tomates do que a esmagadora maioria dos homens que conheci ao longo da minha existência. E esta é a que me salta à vista, quando tento imaginar o tipo de pressões a que se terão submetido desde que assumiram a sua relação proibida à face da lei, dos costumes e da mania filha da puta de toda a gente meter o bedelho na felicidade alheia para a emporcalhar com os mesmos argumentos e atitude que destruíram a sua. Eu explico melhor.

Ser feliz é um desafio diabólico, num mundo onde um ser humano normal já terá sorte se conseguir reunir em seu redor uma meia dúzia de pessoas verdadeiramente interessadas nas suas necessidades e preocupações. Quando essa felicidade envolve algo que colida com a moralzinha institucional, como esta coisa nojenta de criaturas do mesmo sexo apaixonarem-se umas pelas outras, a falsa beataria denuncia de imediato o desconforto com atoardas pseudo humorísticas ou mesmo com o discurso enlatado da moralidade convencional.

A pilinha no pipi é que está bem. Na posição de missionário, para adorar a Deus por inerência e apenas para efeitos reprodutivos. É assim que a malta gosta de pensar que se faz, apesar de (como qualquer estudo confirma) fazerem menos do que gostariam ou mais do que assumem perante a plateia.
E quando surgem a lume duas gajas (ainda por cima, gajas) a reclamarem o respeito que a sociedade pós-medieval lhes deve, caem-lhes em cima as frustrações, as castrações, as invejas (ah, pois), os tiques puritanos de uma seita de contrabandistas do pecado. Que se manifestam em tom jocoso ou recorrem mesmo ao insulto vil para exibirem o seu nojo pela liberdade exigida por quem possui o mesmíssimo direito de ser feliz. À sua maneira.

Eu tenho a sorte de ser heterossexual. É uma sorte porque me coloca no grupo tolerado dos que, mesmo fazendo coisas proibidas à luz das convenções, o fazem de uma forma aceitável para a sensibilidade arcaica destes arrumadinhos e engomados infelizes que adoram empatar as fadas alheias. E é uma sorte porque não precisei de enfrentar toda a carga pejorativa (os outros) que se instala nas vidas de quem prefere viver de forma diferente da minha o sexo e o amor.
Pior para as raparigas em causa, só se fossem pretas ou qualquer outro desses estigmas de merda que pintam a diferença como uma tabuleta que distingue as pessoas alegadamente inferiores ou mesmo perigosas para quem se sente afectado por tudo quanto pise a linha traçada pela diatribe da moral cristã e outras imposições do além que só lixam a vida das pessoas.

Não tenho nada a ver com a vida das duas mulheres que conheço da televisão e nem faria menção à sua luta titânica se não assistisse às brincadeiras de mau gosto, às manifestações de repúdio sonso e ao conjunto de exibições de hostilidade mais ou menos encapotada com que me deparo na blogosfera também.
Pode ficar a ideia errada de que aquele casal só conta com a simpatia e o apoio da comunidade lésbica e gay.

A homossexualidade existe, é um facto e não há forma (nem pretexto) de o erradicar. Nem argumentos plausíveis. Então a questão é simples para mim: a legislação deve eliminar os obstáculos que impedem qualquer cidadão de ter uma vida normal, qualquer que seja a sua preferência sexual. Isto é assim tão complicado, deixar a cada um a sua opção de felicidade e consignar essa liberdade de escolha na lei?
É assim tão difícil de suportar a liberdade dos outros quando a espreitamos por detrás das grades dos nossos espartilhos culturais?

Prefiro enfatizar a coragem e a rebeldia. Prefiro dar a cara pelo amor, mesmo de quem ama de uma forma diferente da minha e isso não me torna especial: é o que todos deveríamos defender como prioridade e, em última análise, como a única possibilidade do mundo que construímos poder evoluir no sentido correcto.

E a escolha acertada é sempre a que privilegia a felicidade como valor fundamental.
publicado por shark às 10:41 | linque da posta | sou todo ouvidos