MÚSICA NO CORAÇÃO

É bonito, defender valores. E não estou a falar de segurança privada, mas sim daqueles princípios que nos filmes e nos livros e na memória gasta dos mais idosos constituem os traços que definem as pessoas de bem e que valem a pena. Alegadamente.

 

É bonito, fazer a apologia dessas coisas que distinguem quem merece todo o crédito, respeito e confiança. Melhor ainda, lindo até, promover a aplicação prática desses conceitos. Honestidade, integridade, dignidade, honra. E outros dessa categoria.
Borboletas e flores, passarinhos a cantar num prado verdejante e essas merdas. Música no coração.
Música, de facto, pois o mundo mudou. Imenso. Soam como melodias antigas, roufenhas, essas noções arcaicas de cavalheirismo, de bonomia e de seriedade que permitiam um orgulho genuíno por parte de quem se mantinha intocável nesses particulares.
São arquétipos de comportamento desfasados da realidade como a enfrentamos agora. São vulnerabilidades, afinal, numa forma de estar que privilegia o sucesso como bitola para o valor de qualquer pessoa.

 

Só os bem sucedidos, e ninguém ouse questionar-lhes os meios para atingirem tais fins, angariam respeito e consideração. Quem está bem fica sempre melhor. Aos olhos dos outros também. Nunca ficam isolados, os vencedores, embora esteja garantido que ficam igualmente pendurados quando dão os flancos se algo corre mal. Porque caem do pedestal e isso ninguém perdoa, antes pelo contrário, pelo mau exemplo que constituem para quem acorda em cada dia com ganas de subir na vida, de ascender a um patamar superior que equivale a maior poder financeiro e que se traduz na posse de bens que o exibam.
Aos restantes, os antigos, resta apenas enfrentar a estranheza, a indiferença, a estupefacção ou mesmo o escárnio de quem os ouve, pelintras, envaidecerem-se por serem anacrónicos, inevitavelmente perdedores no mundo hipócrita da correria, da guerra sem quartel e sem escrúpulos pela conquista de mais seja o que for.

 

É bonito, ser como um piano de cauda clássico, raro, daqueles que só servem para engalanar o salão ou para entregar à loja de penhores quando a coisa descamba. Ou para aterrarem com estrépito na mona dos que a sorte ou o juízo atraiçoam.
É bonito, tocar a música clássica no meio da pista de dança da discoteca da moda onde outros se mostram, todos alinhados num ritmo moderno e tão vazio de conteúdo como requintado na forma, todos se assumem determinados a seguirem o rumo do progresso, a tal ganância pelo sucesso que obriga a evitar as inconveniências que possam beliscar as relações de cristal.

 

Mas é duro constatar que uma educação para o futuro, as gerações que se sucederão, tem que ter em conta uma forma de pragmatismo assassina de muitos dos tais valores e princípios que a vida, impiedosa, não deixa de apresentar como uma factura pesada aos que tropeçam na debilidade mais definitiva: a daqueles que só quando tombam percebem que uma postura imaculada é a receita acertada para que ninguém lhes queira valer.

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publicado por shark às 12:17 | linque da posta | sou todo ouvidos