CONTRA OS CANHÕES

Mesmo quem não presta atenção ao estranho fenómeno que é o futebol deixa-se contagiar pela cena quando está em causa a selecção nacional. Resquícios da era Scolari, como a Imprensa desportiva costuma baptizar o mandato (por norma curto e conturbado) dos timoneiros "já era" da equipa de todos nós, ainda no tempo em que a malta se prestava a meter bandeiras nas janelas para depois as deixar lá a apodrecer.

 

Hoje joga-se a primeira de duas finais que podem conduzir Portugal a mais um período insano de domínio do futebol sobre todas as restantes facetas da realidade noticiada.
Sim, o assunto é importante por tudo aquilo que representa. Por tudo aquilo que movimenta em matéria de dinheiro, de interesses, de emoção. E um bocadinho, vá lá, por ser uma modalidade desportiva com tudo o que isso implica de saudável e assim.
Nessas duas finais joga-se boa parte do que os futebolistas seleccionados poderão almejar nas suas carreiras, tanto para os que ainda mal as começaram como para aqueles para os quais este torneio pode representar a derradeira oportunidade de brilhar num grande palco internacional.

 

Depois da geração de ouro, a tal que prometia tudo mas só rendeu algo de significativo em matéria de títulos para os grandes clubes europeus, está agora em campo a que a rendeu. Cristiano Ronaldo, Nani, Miguel Veloso, Bruno Alves e outros ilustres irão agora erguer o estandarte legado por Figo, Rui Costa, João Pinto, Pauleta e mais uns quantos.
Sim, soa a linguagem militar. Mas é assim que se vive o futebol. A tribo dos leoninos contra a dos lampiões. O exército lusitano contra os bárbaros bósnios. Batalhas que se disputam, onze contra onze, pela conquista da glória de um esférico enfiado numa baliza.
É esse o objectivo destes heróis modernos, a geração de prata (porque brilha menos que a anterior e ainda não ganhou nada que se visse) que hoje tentará garantir a presença portuguesa no Mundial de Futebol da África do Sul.

 

E caso não consiga lograr esse feito que o país reclama uma coisa é certa: continuaremos a fazer o culto das várias gerações de bronze, estátuas, as que eram todas boas à brava mas por isto ou por aquilo acabaram quase sempre a lamber as feridas ou a roer os pretextos (as arbitragens, as noitadas, as birras, os bodes expiatórios, o pilim) das derrotas impensáveis ou da eterna maldição das vitórias morais.

publicado por shark às 14:57 | linque da posta