A POSTA NOS INCONVENIENTES DA SUCESSÃO

Sempre me afligiu o drama das pessoas que se obrigam a passar uma vida a corresponder às expectativas alheias, nomeadamente quando essas são criadas com base nos méritos dos seus antecessores num cargo ou numa condição qualquer.

 

Ocorre-me por exemplo o clássico dos filhos de uma pessoa brilhante e bem sucedida, a quem toda a gente tomará por termo de comparação. Toda a vida serão avaliados, esses filhos, em função das realizações dos respectivos progenitores. E se tiverem o azar de não herdarem os talentos especiais que toda a gente em seu redor (ou ainda pior – os próprios) exigirá que manifestem, espera-os uma vida de amargura e de frustração.
Mas o fenómeno pode igualmente verificar-se, embora com uma carga emocional menos relevante, num cargo laboral assumido após a saída de uma pessoa admirada pelos seus pares. Por muito que se tente, lá está a inevitável sombra a reduzir quaisquer veleidades a pó.

 

Claro que é fácil de perceber que é injusta esta forma de as coisas acontecerem. Até porque as pessoas apanhadas neste tipo de conjuntura até poderiam ser consideradas excelentes, caso não existissem os antecedentes que as inferiorizam de forma espontânea aos olhos de quem compara com alguém mais dotado. É uma reacção legítima e nem se pode considerar intencional, mas pode constituir um pesadelo para quem dá o seu melhor com a sensação de que nunca basta.

E presumo que suscite alguma revolta por parte de quem só enfrenta as expressões de desilusão ou de paternalismo, os descuidos dos que avaliam a partir de uma fasquia elevada, por via das experiências vividas (ou não) por terceiros.
Ou seja, o valor intrínseco não pesa tanto como o valor relativo e isso descobre-se precisamente na tendência generalizada para, mesmo de forma inconsciente, avaliar os outros por comparação quando esta é possível.

 

Uma das consequências inevitáveis destas sempre desconfortáveis heranças é a subvalorização de pessoas que até poderiam revelar-se melhores se não vivessem algumas realidades sob o estigma que, no mínimo, as obriga a ouvirem depreciações que derivam precisamente da excelente imagem de outrem que lhes é colada e acaba por influenciar a opinião a seu respeito, pelo tal fenómeno corrente das comparações que condicionam ou deturpam a percepção dos outros a respeito de quem mesmo que faça tudo o que pode será sempre a mais obrigado/a.

publicado por shark às 10:38 | linque da posta | sou todo ouvidos