HISTÓRIA DE ENCANTAR

É fácil perceber que os políticos, de todo o Mundo, fazem tudo ao seu alcance para deixarem vincado o seu lugar na História. Acredito até que muitos acontecimentos terão tido na sua origem esse apelo irresistível de associarem os seus nomes aos grandes capítulos que ambicionam protagonizar, alguns tão desastrosos e com efeitos bumerangue tão notórios que nem precisamos esperar pelo futuro para lhes adivinharmos o cariz de tiros no próprio pé.

Assim de repente ocorre-me George Bush, mas não faltam candidatos a essa galeria.

 

Uma das lições que os líderes políticos há muito aprenderam é a do poder da propaganda. E se a democracia obriga a algum pudor nesse particular, evitando o descaramento simplório, a tecnologia (nomeadamente o impacto dos media e da internet na opinião pública) transformou-se num recurso magnífico para as pretensões de quem pretende moldar a sua imagem no presente à medida da que se pretende registada para o futuro.

É demasiado óbvia, essa tendência que se manifesta por exemplo no recurso a agências de comunicação e de imagem a quem os líderes deste tempo recorrem para influenciarem a propagação do seu ícone pelo imaginário colectivo, sabendo-se que a coisa até acaba por pegar entre uma multidão imensa de alimárias que, no interesse da maioria dos políticos, seríamos (ou viremos a ser, por este caminho) todos nós.

 

A blogosfera é criticada por alguns precisamente por possuir esse fascínio de constituir uma ferramenta de marketing de imagem dos pequeninos, sendo fácil pintar um retrato porreiro por detrás da camuflagem do anonimato para impressionar as visitas e assim se vestir uma outra pele.

Claro que o anonimato só serve aos que se contentam em viver a imagem forjada num plano estritamente virtual. Para os que, mesmo sendo pouco mais do que anónimos cidadãos, ilustres desconhecidos, a ambição desmedida por uma projecção em condições cega o discurso e a lucidez, dar a cara é fundamental e aí já entramos no mesmo tipo de apelo com que abri esta posta.

 

Sim, um lugar na História também pode ser reclamado por quem bloga. Não na História de um país, privilégio de políticos e de outros falsos heróis modernos, mas na da blogosfera herself. Ou seja, empoleirados em meia dúzia de realizações pessoais (e muitas vezes meritórias) ou na antiguidade que é um posto começam a surgir os self made men (e women...) cujos méritos surgem escarrapachados por si próprios com o único intuito de se colarem aos rostos dos que os possuem devidamente creditados mas num patamar superior (a tal escala nacional que um blogueiro em Portugal só pode almejar quando já é figura pública de antemão...).

 

Pode soar patético, este esforço resultante de um apelo quase infantil. Mas pegando de novo no exemplo dos líderes de nações, pelos vistos o mesmo deslumbramento com a força crescente da Informação nos contornos da opinião pública já começa a fazer-se sentir na arraia miúda que pulula nesta nossa comunidade umbilical.

 

E por isso, só por isso, um gajo até desculpa com instinto paternalista a figurinha de alguns colegas quando se equilibram de forma precária nas pontinhas dos seus pés. 

 

 

publicado por shark às 10:59 | linque da posta | sou todo ouvidos