WHITE BLUES

Um piano plantado sobre a neve que cobre o relvado de uma mansão.

A música ausente que acentua a solidão de alguém presente no espaço vazio, devoluto, um rosto mal enxuto das lágrimas agora congeladas, o rasto das pegadas no trilho final.

Marcas daquilo que correu mal numa vida qualquer, um homem ou uma mulher torpedeados pela sorte ou arrastados para a morte social.

 

Um piano patético, coberto de um branco natureza que transmite apenas a tristeza de quem já deixou de o tocar.

A música a ecoar numa memória demente de alguém que foi importante, com honra e glória, mas perdeu o brilho de outrora, alguém que cedeu agora depois de um tempo marcado por tristes baladas que naquele piano eram tocadas para expurgar o desespero.

 

Um piano ao relento, um suspiro levado pelo vento, alguém escondido por detrás de uma janela a olhar, alguém enlouquecido a sonhar com a música que ecoava no salão em dia de baile, perdido no tempo por não conseguir acompanhar-lhe a passada.

A lembrança da música tocada, agasalho para o frio interior, a vontade de partir para um sítio melhor.

 

Um piano inútil, uma esperança tão fútil e vã como a chama de uma vela à mercê da primeira brisa gelada da manhã a chegar.

E os primeiros raios de sol no corpo de alguém com o rosto tombado no frio do teclado, depois de toda a resistência se esgotar. 

publicado por shark às 16:56 | linque da posta | sou todo ouvidos