O LADO OBSCURO DA LUA

Quando alguma nave tripulada passa pela face não iluminada do nosso satélite natural as comunicações tornam-se impossíveis, não existe qualquer forma de contacto que permita saber se a tripulação está bem ou se até já deixou de existir por algum motivo imprevisto daqueles que o espaço, como alguns elementos na terra, pode providenciar.

 

Se há coisa que atormenta quem ama é a impossibilidade de saber a todo o instante se um alvo desse amor está bem e livre de maleitas. Dificilmente concebo maior angústia do que a criada pela inevitabilidade da especulação quando nada mais resta do que confiar na fé, por ausência de notícias.

São momentos difíceis de ultrapassar na sua condição de indesejáveis. À saudade que a distância possa impor, acresce o receio que a ausência de contacto alimenta na proporção do desconforto crescente que o silêncio lhe soma quando imposto pelas circunstâncias e estas nem são, digamos, normais.

 

Nem falo de medos mesquinhos, medos pequeninos que possam derivar de alguma insegurança emocional ou outra, mas da preocupação genuína com o bem-estar de alguém que por alguma razão esteja completamente inacessível.

 

É flixado e incompreensível num mundo onde mesmo com os astronautas só deixamos de conseguir comunicar quando precisam de passar no lado escuro, propriamente dito, da lua que, tal como qualquer um dos que afectam na Terra as comunicações, se transforma numa força de bloqueio indesejável e que dá vontade de partir ao meio para não atrapalhar.

publicado por shark às 16:54 | linque da posta | sou todo ouvidos