A POSTA FUNDIDA

Crescemos às escuras por entre o matagal de influências que nos moldam boa parte do que acabamos por ser, abrindo caminho com a catana daquilo que trazemos na essência, as peças de origem, mais o que conseguimos adicionar depois de filtradas as opções que a vida nos oferece, em busca de uma luz que nos permita escolher os comportamentos que nos expliquem o carácter e nos definam de uma forma qualquer.

 

Aquilo que queremos ser, ou pelo menos nos acreditamos, subjectivos, mas acabamos por transmitir de formas tão variadas quantas as percepções dos outros que nos avaliem. Aquilo que somos de facto, feitio e acções, capacidade e ambições, tudo medido em paralelo pela nossa bitola (em função dos objectivos que nos atrevemos a traçar e dos meios que aceitamos ou temos hipóteses de utilizar) e pela de quantos nos rodeiam ou tomam de alguma forma contacto com as nossas realizações.
Dois pesos e duas medidas, afinal, qualquer delas sem outro rigor que não o da falível opinião pessoal ou mesmo colectiva. Juízos proferidos em função de critérios definidos no passado e que o tempo em que vivemos e o ambiente em que nos movimentamos adoptou. Modas passageiras, tendências, abraçadas em função daquilo que as consciências individuais determinam e a sua soma, a maioria, impõe.

 

À deriva na escuridão que nunca rompemos de facto com mais do que simples pirilampos de inteligência condicionada, de esperteza assimilada ou de meros instantes de lucidez, reclamamos superioridades fictícias seja sobre quem for, os inefáveis juízos de valor que nos afastam da verdade e nos cegam para uma realidade tão fria como a da morte ou da sobrevivência precária à espreita a cada esquina nesse caminho às escuras onde coleccionamos tropeções.
Distraídos com a necessidade de uma integração no modelo aplicável, naquilo que a maioria considera aceitável, abdicamos aos poucos da rebeldia, da vontade de questionar que nos permite avançar com maior confiança, com as respostas necessárias, pelo tempo de que dispomos e às tantas a própria felicidade acaba perdida no breu.
Acabamos de olhos postos no sucesso que afinal é pouco mais do que uma cenoura que nos impingem como um farol.

 

Autómatos involuntários de um sistema que não passa da aplicação de uma lei da selva envernizada à medida dos que pretendem quebrar com outras forças, civilizadas, a resistência de quem o possa boicotar, acabamos todos cegos numa terra de reis. Vulneráveis aos caprichos da sorte mais os de diferentes poderes, vagueamos desorientados, desarmados, num mato ainda mais denso do que aquele que antes tentávamos desbravar. Desistimos de procurar alternativas, alinhamos com atitudes passivas numa resignação que de tão vincada quase se confunde com uma apatia generalizada perante o logro descomunal que nos afasta de nós próprios e de quem nos possa deitar a mão.
Individualistas, divididos para que alguém possa reinar, nas trevas de uma solidão disfarçada com todo o tipo de entretenimento que nos possa alienar.

 

Perdemos aos poucos a vontade de iluminar o tal caminho com algo de nosso e deixamo-nos conduzir de forma dócil por uma promessa que só tarde demais se revela um ardil. Tomamos como inimigo o parceiro do lado, igualmente desorientado, porque sem querer nos dá um encontrão e acreditamos ambicionar a conquista do nosso espaço vital, a promoção ou outra ganância que funciona como um chicote invisível, a pessoa que é nossa porque a amamos, ou mesmo porque beliscam um bem qualquer, uma vaidade que cultivamos no primado da futilidade que acentua a arrogância e nos impede de aceitar de forma humilde uma crítica, um reparo sequer.


A vitória cada vez mais ilusória à medida em que as luzes da ribalta, miragens, desvanecem e damos, no meio da penumbra, com os filhos criados por terceiros, distantes, quantas vezes indiferentes à pessoa que pouco ou nada os acompanhou e apenas por obrigação nos chamam mãe ou pai.

 

Depois chegamos a velhos, acende-se a luz, e só então percebemos como essa cegueira nos trai. 

publicado por shark às 23:04 | linque da posta | sou todo ouvidos