CAMISOLA AMARELA

Num país onde a ética raramente surge como prioridade quando estão em causa interesses financeiros/comerciais e sobretudo, e para meu particular regozijo, numa actividade sempre olhada de esguelha nessa matéria pela opinião pública, a atitude da Liberty Seguros relativamente aos casos de doping na sua equipa de ciclismo merece todo o destaque que lhe consigamos dar.

 

O caso foi sobejamente divulgado na Imprensa e por isso não vou pegar por aí. Resumo apenas o seguinte: três ciclistas da equipa patrocinada pela Liberty Seguros, nomeadamente o vencedor(?) da última edição da Volta a Portugal, foram apanhados a competir com substâncias proibidas.

Não faltam exemplos de situações similares que são de alguma forma ignoradas ou mesmo abafadas por quem defende primeiro o dinheiro e só depois os princípios, ao ponto de quase acharmos normal que assim se proceda.

 

Contudo, José de Sousa, o CEO da Liberty Portugal, já deu provas de não alinhar por essa bitola e este episódio ilustra a diferença que o distingue aos meus olhos da maioria dos seus pares.

É o próprio quem afirma: Mesmo antes de a notícia vir oficialmente a público, antecipámo-nos na gestão da crise e mandámos de imediato um comunicado para as redacções dos jornais a dizer que para a Liberty Seguros o ciclismo acabou e que se retirava de imediato o apoio e patrocínio à equipa.

E ainda acrescenta, num toque pessoal pouco costumeiro nos gestores de topo: Para mim, pessoalmente, foi com uma sensação de profunda e indescritível tristeza e desapontamento que tomei conhecimento da notícia. Envolvi-me, de alma e coração, no apoio à equipa, fui sempre muito claro, em público e em privado, que não entenderia nem toleraria o menor deslize num aspecto que para nós é dogmático e, portanto, foi como ter recebido um soco directo ao estômago.

 

São vários os aspectos que me fazem sentir orgulho, enquanto profissional dos seguros (destaco que não tenho ou tive qualquer ligação comercial com a empresa) e na pele de cidadão português, da atitude desta empresa e do seu responsável.

Mas saliento o facto de se tratar de uma posição diferente das que nos habituámos a encontrar, tendo em conta que a Liberty Portugal responde perante uma casa-mãe nos E.U.A. (imagine-se o embaraço da justificação para a perda financeira daqui resultante, bem como o dano na imagem da marca).

O repúdio visceral perante a batota prevaleceu e a dignidade, essa desaparecida, pautou a reacção espontânea da organização e do seu líder.

 

E só por isso merecem sem dúvida o meu respeito e o profundo agradecimento pelo exemplo que se constituíram e espero venha a fazer escola neste país de vergonhas escondidas e de posições duvidosas.

publicado por shark às 12:00 | linque da posta | sou todo ouvidos