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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

27
Jan06

A POSTA JÁ

shark
amanheceres.JPG
Foto: sharkinho

Retrato parado de um tempo congelado no momento em que a felicidade era outra.
Esboço grosseiro de uma natureza contraditória, ficou na memória a imagem de uma realidade que se escondia por detrás de um sorriso proibido que a máquina fixou.
Para a posteridade na consciência, lembrada a custo a emoção que se sentiu mas que o tempo arrastou aos poucos para o canto das imagens sem cor.
Sentimento de culpa, castigo que dura. Acarinhar a mentira enfiada numa moldura. Fazer de conta.

No sol que desponta há um futuro que brilha, em cada manhã que o presente nos entrega como uma oferenda. Há a beleza da luz e a certeza absoluta da oportunidade concedida, a esperança renascida no dia por gastar. Sem tempo para poupar, o que se escoa por entre os dedos impotentes de quem o queira chamar seu.
Passar a esponja da indiferença sobre as coisas relativas que hoje se vestem como dramas e amanhã enregelam despidas na galeria das pequenas partidas que a vida nos pregou.
Seguir para bingo com a vista colada à linha do horizonte, sempre defronte, que não é a nostalgia a criar a magia que queremos para nós. É paisagem esquecida, aquela que a vida deixou para trás.

Fotografia imóvel de uma farsa que o tempo desmascarou, encaracolada nas pontas, carcomida pelo abandono dos poucos olhares que a visitam, por acaso, no meio da limpeza do pó. É o registo guardado do tempo que acabou e não tem condições para regressar.
A vida a mudar, conjunturas alteradas nas malhas tecidas pelo acaso ou pela nossa influência. Sinal de decadência, o culto absurdo dos equívocos que se revelam na película e se perpetuam sem nexo no rosto perplexo de quem segura apenas um pedaço de papel sem sentido, valor tão fingido que acabou por falir.

Agora o pensamento concentra-se no investimento de amanhã e a lógica inviabiliza a gestão das acções atrasadas, as águas passadas que o tempo congelou no frio cortante que viria a soprar por entre as frinchas abertas de uma revelação qualquer. Ou apenas pelo desgaste natural, a pena capital para as ilusões criadas ao abrigo de uma fantasia.
Mas hoje nasceu um dia e enche-se a carteira de tempo à maneira para apostar à fartazana, sem contar os tostões. Os euromilhões são pedaços da existência, minutos contados para cada pessoa, dádivas divinas para quem ambiciona a riqueza de ser feliz.
Milionários à força, contra a falsa evidência de uma pobreza que só existe, afinal, na vida mendigada de quem analisa pessimista a cotação do presente, ignorando essa gente a fortuna que pode surgir amanhã. Ou, se calhar, até já chegou, no bilhete premiado que só é registado quando se investe na fé.

O milagre a acontecer, apenas para os que ainda cá estão.
E nessa condição de simples mortais, ingratos seremos se não cultivarmos as coisas reais, o calor dos abraços e as alegrias que nos dão.
A vida que não se experimenta nas memórias fotografadas.

É hoje que deve acontecer.
Em cada amanhecer, o apelo do amor que se faz.

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