SHIT HITS THE FAN (A POSTA TERRORISTA)

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Feliz Natal!

Existem as meias-verdades, as histórias mal contadas e as mentiras piedosas. Este poderoso arsenal está ao alcance de qualquer pessoa e o cidadão comum utiliza-a sem problema, como um telemóvel, como um comando de televisão. Ou como qualquer outro utensílio indispensável no quotidiano de cada um.
Contudo, o cidadão comum não está preparado para manusear os equipamentos em causa. Estoiram-lhes a vida em pedaços quando implicam um retorno, um desenlace imprevisto que lhes esmaga as pretensões.

As meias-verdades são o expediente mais banal. Conta-se a história numa versão reduzida, parcial. Conta-se o mar de rosas e o final feliz e omitem-se os detalhes melindrosos ou mais susceptíveis de se virarem contra o contador. Quem conta uma meia-verdade conserva sempre a parte mais suculenta da informação, a pedra de arremesso futura, o pormenor sórdido que em vez de descer pelo cano flutua. Vem à tona porque a metade da verdade contada não camufla as incongruências e estas, como se sabe, cheiram mal em qualquer história.

As histórias mal contadas são a versão pimba das verdades meias. Mais desajeitadas, equilibradas a custo num mísero galho de veracidade, visam apenas desviar as atenções ou inventar alibis. Não requerem um esforço intelectual intenso, divertem os interlocutores mas, em contrapartida, é frequente uma história mal contada descambar num cenário confrangedor. Um pouco como um tipo tapar a cabeça e destapar os pés.

As mentiras piedosas são a artilharia pesada do hipócrita padrão. A piedade beatifica-as. São um mal necessário, um mecanismo de protecção ‘legítimo’ contra a capacidade de reacção da pessoa que se visou. Não se conta a história e inventa-se uma outra em sua substituição, para o alegado bem de um inevitável coitadinho incapaz de encaixar uma verdade nua e crua. Faz-se de parvo o alvo desta estranha misericórdia. Porque a mentira apenas oculta por algum tempo uma verdade à solta, ansiosa por se fazer descobrir.

A verdade é como uma espécie de factor aleatório, uma mina, uma bomba-relógio oculta, discreta num canto para ninguém a descobrir. Quando dão por ela, nem os especialistas conseguem desarmar alguns detonadores.
E depois pum!
publicado por shark às 11:03 | linque da posta | sou todo ouvidos