DE LEGO A CONSTRUÇÃO (de mim)

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Foto: sharkinho

Peça a peça, construímo-nos pessoas como legos. A partir de um desenho, o esboço de um plano que os outros nos impõem seguir.
No início disciplinados, cada peça encaixada na devida posição. Casinhas de brincar, palácios ou castelos, utopias para sonhar. Alinhamos sem dúvidas até ao dia em que na nossa cabeça assoma a primeira peça que não joga certo com o figurino.

As partidas do destino que nos obrigam a repensar a solidez das construções. Intempéries interiores mais as que nos chegam de fora. Substituímos as peças por outras, nem sempre da mesma cor. Mesmo a forma é alterada e num ápice refazemos a pessoa que se construiu. Questionamos o desenho quando nos assola a rebeldia, adolescentes imberbes com sede de mudança. Exigimos recorrer à imaginação. Rasgamos aos poucos o esquema original, para o bem e para o mal, em busca da construção adequada.

Chegamos a adultos quase sem rasto das peças de origem, mergulhamos na vertigem que nos impõe diferentes materiais. Novos visuais. Reforçamos a estrutura, telha baça na cobertura e quase desaparecem as janelas para o exterior.
Verdadeiras fortalezas, instaladas sobre as ruínas do modelo que se desfez. Peças metálicas, blindamos a alma no espaço hermético que protege o nosso melhor das múltiplas agressões lá de fora, fugimos do frio.
Peças novas, coloridas, encaixadas à pressa para colmatar as lacunas. Estratégias superficiais para defender o vazio, esquecido o recheio nas plantas da fachada essencial.

Às tantas esquecemo-nos da traça original da construção que nos definia. Afastamo-nos à deriva da pessoa que sonhámos vir a ser um dia.
Talvez amanhã, esperança adiada, quando as peças disponíveis escasseiam e torna-se impossível reconstruir à nossa medida. Envelhecemos. E um dia esquecemos a vontade de brincar, a emoção de amar, a luz do dia radiosa para lá do muro sem frestas, um monte de peças inúteis que só servem para nos estorvar.

Recuso para mim essa arquitectura. Enquanto ainda dura a capacidade de sonhar. É importante amar até ao último suspiro, montes de peças para acrescentar na obra inacabada que não interessa completar. Interessa sim apressar a corrida, brincadeira despida de preconceitos ou castrações. Peça que tiro, peça que pões.
Sempre a abrir naquela estrada, a da tabuleta à entrada que dizia “se quiseres não tem fim”.
Em busca de mim e das outras pessoas, as peças trocadas para aumentar as opções. Melhores as construções partilhadas, experiências somadas num lego comum.

Que é muito mais seca jogado a um.
publicado por shark às 22:25 | linque da posta | sou todo ouvidos