SIM, VOU VOTAR SÓCRATES. E ATÃO?

Há muito abdiquei de uma opção partidária "fixa", depois de abandonada a militância de onze anos num partido de esquerda, em prol de uma escolha à boca das urnas em função daquilo que me parecem ser os superiores interesses do país e do que mais se coaduna com o meu modelo de sociedade.

Claro que como a maioria de nós sinto-me sem grandes opções nesta altura e não me revejo de todo na classe política que temos, nem deposito esperança por aí além na fiabilidade do pendor ideológico seja de que partido for (ok, o PC é uma excepção nesse particular, embora uma teoria valha o que vale) quando e se esse partido chegar ao poder que, na prática, é extremamente condicionado pelas regras da União a que (ainda) pertencemos.

 

Assim sendo, resta-me investir a minha atenção nas pessoas. Nomeadamente nos líderes partidários, pois é um facto que o problema português só pode resolver-se com uma liderança forte e determinada, de preferência capaz de mobilizar um conjunto de pessoas de bem capazes de gerirem os vários pelouros de que um Governo se compõe.

E vejo as coisas de forma simples, como passo a explicar.

 

Jerónimo de Sousa, como qualquer líder comunista, é certamente um líder com pulso de ferro e não faltam as deserções/afastamentos que o comprovam.

Ou seja, não duvido que daria um Primeiro-Ministro capaz de impor a ordem entre os seus. O problema é que também imporia essa ordem entre os outros e o seu formato não me serve de todo e acredito que ao país também não serviriam (pelo menos nesta fase da História) alguns dos pressupostos que norteiam a teoria e mesmo a prática comunista (como os exemplos sobreviventes a nível mundial comprovam).

Neste candidato não votaria.

 

Francisco Louçã não me convence enquanto pessoa, tanto quanto o Bloco me inspira sérias dúvidas em termos de consistência. E não acredito, até ver, no BE como solução de poder porque lhe encontro demasiados paralelos com os aspectos negativos do PC que me afastam dessa solução.

 

Paulo Portas é o Francisco Louçã da direita, tal como o SEU partido acaba por ser igualmente uma organização que oscila no discurso em função das circunstâncias.

Hábil enquanto político e determinado quanto baste para se credibilizar enquanto líder, só soa opção quando comparado com a líder do outro partido à direita do espectro político-partidário. Mal por mal, antes ele.

 

Manuela Ferreira Leite é inenarrável enquanto potencial PM de Portugal. Representa tudo quanto de mau recordo do cavaquismo no seu pior, a começar pela falta de formação e até de educação como ainda ontem constataram os jovens de Bragança.

Por outro lado, o PSD é o partido que alberga gente tão disparatada como o Alberto João, tão desastrada como Santana Lopes, tão pouco patriota como Durão Barroso (não esqueci a sua deserção) e tão pouco firme como os vários cromos que depois de ferrarem o dente na sua líder aparecem agora a dar ao rabinho para se perfilarem como potenciais sucessores em caso de trambolhão eleitoral.

Não consigo conceber Portugal nas mãos de tal gente, sobretudo com a conivência de um Presidente que só agora começa a revelar-se na sua verdadeira essência e constitui o maior erro de casting colectivo desde o 25 de Abril.

 

Resta José Sócrates e o seu partido cada vez mais parecido no comportamento dos seus ilustres com o principal opositor.

Mas o "arrogante", como o tentam pintar, é mesmo o mal menor de entre as escolhas possíveis. Basta-me comparar a actuação da sua maioria absoluta com a anterior, a cavaquista, e perceber que mesmo em tempo de crise profunda ainda não vi a polícia de choque à bastonada nas ruas. Não me esqueço como ficou resolvido o problema criado pelos camionistas tempos atrás e sim, orgulho-me do Magalhães enquanto realização nacional.

Não sendo um menino de coro, bate aos pontos aquela que é efectivamente a alternativa para uma vitória eleitoral no sufrágio que aí vem, a MFL.

E sim, prefiro um homem do nosso tempo, convicto e determinado, do que um obsoleto, um oportunista, um falso sonso ou uma criatura execrável que fala mais do que manda, como se constata na gestão do seu próprio partido. Basta transportar essa realidade para a do país e é fácil antever o que nos espera se tal viesse a verificar-se, a vitória eleitoral laranja.

 

Sim, existem ainda os pequenos partidos e de entre eles existirá porventura o embrião de uma futura opção de poder. Mas não é agora, como tudo indica, e os votos aí depositados mais não farão do que abrir caminho para um maior fraccionamento de um Parlamento que já se adivinha bem menos hegemónico do que o actual.

 

Por isto tudo, deixo aqui a minha declaração de voto em José Sócrates, mais do que no seu partido, nas próximas legislativas. Algo que não repetirei nas autárquicas, onde a questão não se coloca nos mesmos termos e deve ser vista em função das realidades locais e nunca por critérios de simpatia clubística, perdão, partidária.

A margem de manobra é escassa e acredito que uma maioria relativa bastará para evitar alguns abusos que derivam do excesso de poder.

 

É nisso que quero acreditar e não me restam, de facto, alternativas.

Pelo menos até surgir algures num sacana dum planeta que produziu tantos pensadores brilhantes no passado algum iluminado capaz de produzir uma ideologia que consiga fundir o que de melhor se aproveita das existentes e lhe adicione aquilo de que todos damos pela falta quando percebemos o desajustamento que gera um indeciso em cada cinco e afasta por saturação ou desistência mais de metade dos eleitores das urnas.

 

Isso e um bom lote de pessoas corajosas, patriotas e absolutamente incorruptíveis que também davam um jeitão nesta altura...

publicado por shark às 15:21 | linque da posta | sou todo ouvidos