A POSTA QUE EM MIM MANDO EU

O tema é sério e mereceria outro tipo de abordagem e de disposição da minha parte.

Mas nem sempre consigo reunir a pachorra necessária para me preocupar com as sensibilidades alheias acerca de assuntos nos quais, bem vistas as coisas, ninguém devia meter o bedelho senão os interessados.

E parece-me que a eutanásia se encaixa nessa categoria.

 

Nunca consegui entender porque existem pessoas que se sentem no direito de interferir de forma tão descarada e grosseira na vida dos outros como as que se insurgem contra a eutanásia. A questão é tão simples que nem dá para lhe perceber a polémica associada. Se alguém chega à conclusão que a sua passagem pela existência é de tal forma triste e dolorosa, tão isenta de esperança que prefere pôr-lhe um fim mas não consegue concretizar essa intenção por falta de condições físicas, como é possível que lhe seja negada tal opção?

 

Claro que não faltam argumentos da treta aos defensores da vida do costume, sempre tão lestos a interferirem nos direitos dos outros e na sua liberdade individual no que concerne a este tipo de questões. Contudo, neste caso concreto não podem invocar sequer o papão da matança de bebés que sempre agitaram quando o aborto esteve em causa. Aqui estão em causa as decisões tomadas de forma consciente por alguém que apela a que lhe acabem com um sofrimento que sente como insuportável, com todas as consequências assumidas por essa pessoa a quem não pode ser negado um direito a tomar decisões só porque não possui os meios para as pôr em prática. Tudo o resto são considerandos demagógicos de quem está fora e deveria rachar lenha em vez de tentar apropriar-se do livre arbítrio de outrem.

 

Só aos médicos pode caber uma palavra a dizer na intervenção em actos que contrariem os seus princípios, a nível profissional ou pessoal.

Os que não querem, tal como na questão do aborto que me serve de paralelo, não façam. E os restantes que possam fazê-lo sem julgamentos morais ou legais que não fazem sentido neste tipo de questão que diz respeito ao foro íntimo e pessoal de cada um/a.

 

De resto, nem o Estado deveria inibir cada cidadão de ser dono da sua vida mesmo na decisão de lhe colocar um fim. Legislar num domínio como este é como proibir o suicídio a quem o queira cometer.

 

Ou melhor, é igualmente absurdo mas infinitamente mais cruel.

publicado por shark às 11:14 | linque da posta | sou todo ouvidos