PRATELEIRAS VAZIAS

palavras vivas

 

Uma prateleira branca, vazia, onde coloco palavras cujas lombadas, o seu sentido, ficam tão bem arrumadas quanto consigo para que alguém as possa encontrar sem dificuldade. Na interpretação.

Tarefa inglória, pois cada palavra tem uma história por detrás, ou mais do que uma, tanto faz, e depois ninguém as consegue entender exactamente como as pensei e senti.

Num acto solitário, que a solidão é um receio primário, instintivo, esforço-me por ser criativo na arrumação mas temo a cada passo a constatação de mais um fracasso, outro acto falhado no meu percurso atribulado pelo interior de uma cabeça enfraquecida pelo flagelo de pensar demais sem saber fazê-lo bem.

 

Outra prateleira alva, vazia, logo abaixo da primeira que preenchi com palavras destinadas a serem devoradas por olhares famintos de coisas interessantes que me inibo de acreditar ser capaz de arrumar com os meus dedos hesitantes nestas teclas tão brilhantes com letras estampadas que me compete juntar em palavras arrumadas como deve ser.

Mais um texto para oferecer a visitantes anónimos que o possam apreciar ou me queiram escrutinar na capacidade para a tarefa a que me proponho, este trabalho que executo sozinho até ao fim, saído de um espaço qualquer dentro de mim que preencho com palavras por arrumar.

 

A estante quase a abarrotar com aquilo que consigo dar de melhor a viajantes virtuais que procuram os sinais que vou deixando aqui e além, pequenos marcadores com os relatos dos meus amores ou de outra coisa qualquer, tudo aquilo que puder encaixar nos espaços vazios que tento forrar de ideias e de emoções, de pensamentos e de sensações que me definem aos olhos de quem se serve agora desta obra sempre inacabada que anseio ter forças para prolongar.

 

Esta tentativa vã, frustrada, de me conseguir comunicar.

publicado por shark às 12:34 | linque da posta | sou todo ouvidos