PAPEL FANTASIA

O palco enche-se de luz, projectores individuais, e de som, monólogos circunstanciais que apenas disfarçam com o timbre da voz a realidade de estarem sós, personagens de ficção, por conseguirem ouvir outras que não a sua.

Andam no palco como pela rua, uma realidade igual, e a sua aparência normal não permite distinguir a insanidade que se confirma de verdade quando ocupam de novo o seu lugar na plateia e observam outras actuações na perspectiva de quem ignora as emoções e por isso se permite avaliá-las numa óptica racional.

 

Escarnecem e dizem mal dos outros, as actrizes e os actores, e sentem-se parte dos poucos capazes de estabelecer um critério, levam tudo alegadamente a sério quando proferem a avaliação que não passa de uma sentença, condenação, com que fustigam a esperança e castigam sem misericórdia quem acabarão por substituir sob as luzes de uma ribalta traiçoeira, assumindo a figura foleira, no palco (cada)falso onde interpretam o seu próprio papel.

Recebem sorrisos e aplausos em troca, a hipocrisia que lhes provoca uma estranha mutação no funcionamento do coração e os isola nos cantos mais recônditos de uma tola massacrada pela constatação da inevitável solidão que o individualismo implica.

 

É mais o que se perde do que aquilo que fica, das suas experiências no contexto de existências ocupadas a fingir. Não podem chorar e esforçam-se por rir, dos outros se possível, para evitarem a conclusão inevitável de que não sabem explicar o que é ser-se feliz.

Ouvem aquilo que se diz nos bastidores da sua cena, as vergonhas nascidas na cama com um fruto proibido que é apenas mais um prazer negado pelo costume e pela tradição. E depois reagem com a negação das evidências, tranquilizam as consciências com histórias de encantar que apenas servem para adiar a gangrena emocional que no palco amputam com as mentiras mil vezes repetidas que os outros não escutam, entretidos na sua ladainha pessoal.

 

Nunca se aceitam parte integrante do mal que denunciam no momento em que actuam, cobertos pelos adereços que lhes camuflam a identidade real. Anónimos numa realidade virtual que constroem aos poucos para conseguirem sobreviver à ferida que não pára de doer na sua alma escondida, uma alma dorida com tanta agressão do exterior. Acabam por abdicar do amor como algo de vital quando se aproximam do final da sua performance e olham sem vontade, de relance, para os camarotes que lhes estão destinados a seguir quando chega a hora de abandonar o cenário e de assumir o ideário comum, espectadores atentos da vida de cada um que escrutinam para poderem emitir uma falsa aprovação que desmentem na pequena traição que os torna tão desconfiados.

 

Sentem-se isolados no topo de um pedestal composto por cartas de jogar e o equilíbrio que lhes pode faltar a qualquer instante, à mínima distracção, compensam com a sua actuação que lhes expurga as misérias interiores, amizades interesseiras e falsos amores, culpas descartadas como trunfos sobre a mesa que é o palco onde jogam cada certeza com gana de ganhadores (na aparência). Perdem o norte no esforço titânico para manter a distância e queixam-se da sorte que não lhes falta enquanto desaproveitam a maré alta voltados para as desilusões no holograma de um muro das lamentações que usam como contraponto para a arrogância habitual.

 

Pessoas que desempenham um papel de fantasia no reino das trevas em que transformam o seu coração.

Pessoas que são servas de uma forma de vida onde a felicidade é gerida em função dos caprichos do imperador social.

Prisioneiras das consequências isolacionistas de uma atitude egoísta, gananciosa, feudal.

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publicado por shark às 16:42 | linque da posta