A POSTA NUMA PÁTRIA MELHOR

Em tempos idos eu era um daqueles portugas radicais, incondicionais na defesa do nacional-porreirismo que engloba, entre outras pérolas da nossa condição lusitana, a tolerância desmesurada para com um conceito muito nosso: a balda.

Quase tudo o que de mau suportamos num quotidiano feito de tempo esbanjado à espera que finalmente alguém faça, se possível bem feito, aquilo que fica sempre por fazer, é uma consequência directa ou indirecta desse fenómeno que qualquer pessoa com BI ou Cartão Único português cultiva ou pelo menos (nem que seja porque se não podes vencê-los...) aceita com maior ou menor resignação.

E isto aplica-se ao transporte público que nunca chega à hora prevista como pode aplicar-se à espera em vão por uma consulta que ninguém se lembrou de desmarcar. Ou ao adiamento sucessivo da mudança de casa pelo atraso na conclusão das obras. Ou a qualquer outra das muitas razões sem nexo para nada acontecer a tempo e o nosso se esgotar em exercícios de paciência ou de irritação.

 

Pode ser coisa nossa, visceral, mas é uma porra quando paramos para pensar um pouco no mal que tudo isto representa quando extrapolamos a coisa ao nível de um país sem espaço de manobra para atrasos e/ou negligências que nos afastam cada vez mais dos objectivos que a Europa traçou. Marcamos passo, entretidos a justificar o desmazelo. E não há Governo que consiga fazer seja o que for quando a maioria da população alinha nessa tradição de deixar para amanhã e depois logo se vê e as coisas são o que são mas quem se lixa é o mexilhão que depois se queixa imenso das contas por pagar que são sempre culpa “deles”, dos outros, dos que têm que fazer omeletas sem ovos numa terra cheia de esquemas e de economia paralela, de um povo a quem a revolução ensinou a ser refilão mas falhou-nos a aprendizagem de que nada avança sem trabalho e sem brio na respectiva execução.

 

Por isso me vou afastando progressivamente da minha alma portuga no que concerne à tendência para apontar o dedo à crise, ao azar, aos outros ou a outro busto qualquer para disfarçar o meu contributo para a balda generalizada em que vivemos e não vemos se não quisermos que tem mesmo que acabar. A atitude está errada e há imensas mangas por arregaçar nesta nação a dois tempos em que a passividade se dissemina por contágio, pelo desânimo das poucas e dos poucos que ainda insistem em remar contra a maré.

 

E não é nessa minoria de portugas capazes de contrariarem a tal arte para atamancar, para ir fazendo, para desresponsabilizar, que se incluem os calhordas invejosos e apátridas que deitam o mirone guloso para o nosso vizinho espanhol.

publicado por shark às 14:17 | linque da posta