UM GAJO QUE MORREU

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Fez de conta que não viu.
Virou a cara a tudo quanto assistiu, a tudo quanto lhe contrariava a vontade de acreditar que a vida correria pelo melhor.
Prezava a esperança e procurava a bonança para escapar ao temporal. Na fuga enfrentava os papões, costas voltadas à ameaça pendente sobre o futuro que sonhava para si. Cobarde, afinal. Resignado. Cada vez menos incomodado por aquilo que lhe perturbava o sossego em que desejava mergulhar. Factores alheios à sua vontade, eliminados sem demora. Buscava a paz para poder por fim amar, sem receios, a vida que ambicionava e as pessoas que desejava.

Porque um homem não chora, ainda que para isso seja necessário fingir. O que não queria admitir, mas sabia. Apenas fingia para se poupar à desilusão. Que tudo estava bem, com ele e com os outros também, no seu mundo privado de maravilhas, forjado a custo numa realidade que desmentia o sonho que arriscara nutrir.
Por isso sorria e tentava evitar as agruras da vida com um desvio do olhar. Para o outro lado da questão, outra cor, o rosa do amor e das coisas belas que acarinhava como peças raras de cristal.

A esperança fazia-lhe mal, mas ele preferia assim. Afastava o medo do fim com a coragem de lutar pelas causas perdidas, batalhas esquecidas numa guerra que há muito perdera contra um inimigo no seu interior. A falta de pontaria e a sorte que não desvia a bala destinada a acabar com o desertor. Fugia da dor, mas não conseguia salvar a consciência da sua penitente existência que esbanjava sem nexo no exercício da comiseração.
A pena de si próprio que no final o derrotou.
Quando a vida o desarmou de todas as defesas e o coração suportou as maiores tristezas, fragilizado pela força gasta a defender um território que nunca lhe pertenceu.

No dia em que morreu chamaram-lhe coitadinho, o dom Quixote fajuto que combatia impoluto os moinhos que vento algum soprara. Constava que desertara para evitar o transtorno de se saber corno, limpara com a alegada ignorância a sujidade da demência cujo resíduo constituiria a derradeira traição. No dia em que pela sua mão premiu o gatilho da pistola encostada na sua tola incapaz de aceitar a perda inevitável do que nunca possuiu.

Então desistiu, desesperado, do conforto encenado para consumo interno. Cansou-se das vergonhas abafadas e das sucessivas estaladas que lhe chegavam do inferno ao qual na fuga se entregou.
Um gesto contraditório, dissecado no velório a que pude assistir.
Fui aí que percebi, nas conversas e nas expressões dos amigos e familiares, os castigos subliminares que o conduziram à loucura. Hipocrisia bastarda no discurso e na postura, sinais inequívocos daquilo que o encurralou.

Não foi comigo que falou, mas afirmaram-me a pés juntos que admirava nos defuntos a invulnerabilidade às merdas terrenas que magoam uma pessoa.
Naquele filho de Lisboa que transportámos num caixão vi um homem sentenciado pelo tribunal da solidão.

Se mais vale só do que mal acompanhado, este exemplo flagrante deixa-me algo… perturbado.
publicado por shark às 16:21 | linque da posta | sou todo ouvidos