CRISE DE IDENTIDADE

Meio milhão de desempregados e muita gente a viver abaixo do limiar da pobreza não permitem escamotear a realidade da crise financeira, pelo menos para parte da população.

Contudo, o Algarve esteve cheio de portugueses, tal como o litoral alentejano. E os centros comerciais por todo o país continuam movimentados e não se vêem lojas fechadas aos magotes. E eu interrogo-me sobre a verdadeira dimensão desta crise em Portugal, mesmo tendo visto os meus rendimentos reduzidos a metade em cerca de dois anos. Porquê?

 

A resposta mais clara a este meu aparente cepticismo encontro-a nas descrições dos mais velhos, da geração anterior à minha, acerca do que era a realidade da classe média no tempo em que as crises não existiam com esse nome mas eu, ainda puto na altura, recordo quando os ouço esses dias em que poucos casais conseguiam alugar um T2 sem ser a meias ou repartindo a casa com um hóspede. E não me consta que hoje, mesmo entre as famílias em risco de perderem as casas por não honrarem as respectivas hipotecas, o fenómeno dos hóspedes esteja a popularizar-se de novo, tal como continuo a ver engarrafamentos por todo o lado e muitos transportes públicos quase às moscas. É uma crise estranha, esta.

 

De repente parece que o mundo (financeiro) nos desabou em cima e que toda a gente vai dormir debaixo de uma ponte não tarda, mas afinal não vejo fecharem boutiques às carradas por a malta se governar com os trapinhos arranjados pela modista, tal como não vejo os restaurantes falidos por todo o lado mesmo sob os efeitos conjugados da tal crise com os da deserção daqueles que, como eu, fumam e cumprem a legislação com a ausência desses locais. E vejo matrículas recentes nas estradas, recordando os poucos chassos que circulavam no tempo em que não se falava em crises mas as pessoas viam-se gregas para juntarem dinheiro (dantes tinham hábitos estranhos, não é?) para um automóvel, e agora os estacionamentos cheios de carros que já não cabem na garagem das (muitas) famílias com mais do que uma viatura.

 

Depois hesito em olhar para os efeitos da crise na malta como uma aflição sincera mas mais como um reflexo da falta do espírito de sacrifício que as gerações anteriores aprenderam a incluir na sua forma de estar na vida. Não falo de fora, sou parte da malta e estou a pagar o preço dessa lacuna. E não tendo nascido em berço de ouro também não precisei de interiorizar essa humildade, essa necessidade que levava casais em lua-de-mel a partilharem o espaço nas salas de estar/jantar (na época era um luxo ter uma para cada função) com outros casais instalados por detrás de um biombo, num sofá-cama ou num divã. Por isso me soa estranha esta crise.

 

A malta como eu, da geração cofidis, chora-se e refila. Mas não são as lojas de penhores que têm filas à porta...

publicado por shark às 21:38 | linque da posta