POR ACASO

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Foto: sharkinho

Naquela altura pedia a todos os santinhos que não lhe perguntassem de que terra era, pois não saberia como responder a essa questão.
Sentia-se um apátrida no interior confuso da sua mente etilizada.
Tentava concentrar-se na luz distante do farol do Bugio quando a presença dela se fez sentir, ao seu lado, na areia diante da fogueira que espantava o frio da madrugada que o mar acrescentava com a humidade costeira habitual.

Era uma mulher determinada, como se lia sem dificuldade no brilho e na profundidade do seu olhar. Bonita também.
Dera com ele isolado em frente da fogueira a olhar para o farol e estranhara a sua expressão. Aproximou-se para indagar, curiosa pelo alheamento dele ao grupo que o rodeava e pela tristeza que lia na atitude e no rosto agradável mas perturbado daquele homem.

Perguntou-lhe se estava bem e ele respondeu-lhe com um olhar de menino que a encantou.
Instintos maternais. Justificou assim perante si própria a carícia nos cabelos que lhe ofereceu, quando ele não lhe respondeu senão com um suspiro profundo de quem suporta todos os males do mundo.

Alguns segundos de silêncio, ao som das ondas e do crepitar da fogueira, e ele reagiu. Sorriu e aproximou uma mão do rosto daquela mulher interessante que tentava confortá-lo de alguma forma, uma bênção do céu. Que mostrara preocupação, ao contrário do grupo que desertara e assim o abandonara no tormento da bebedeira deprimida a sós.
Uma crueldade, naquelas circunstâncias. E por isso nada fez para evitar aquela mão que se aproximava devagar do seu rosto e a acarinhou. A pele arrepiou, quando os dedos suaves percorreram a raiz dos cabelos, da testa ao queixo que beliscou de forma meiga no fim.

Depois deixou-se abraçar, quando ele a encostou a seu lado e lhe contou as histórias que trazia dentro de si. Sentia no corpo o mesmo calor que as palavras daquele homem transmitiam quando falava emoções. Gostava do tom, gostava do som, parecia conhecer desde sempre o estranho que a aconchegava contra si.

O beijo surgiu do nada, no meio de uma frase inacabada que uma gaivota interrompeu.
Nascia o sol por detrás da ponte quando os dois amantes se deitaram na areia e celebraram com devoção o romper de um novo dia.

Depois ele partiria, anónimo, de volta para o seu destino traçado que um momento encantado não poderia alterar.
publicado por shark às 13:34 | linque da posta | sou todo ouvidos