COM FICÇÃO

Vivia com a mentira agarrada à consciência, que a tinha em descanso, escapava por todos os meios ao confronto directo com quem podia, eventualmente, desmascarar o embuste que concebera. Desviava a atenção, perdia a compustura, irritava-se quando sentia a pressão do cerco que a verdade lhe impunha, fugia.

Depois mergulhava noutras preocupações, desaparecia. E assim escondia adiada a mentira agarrada como um esqueleto no armário das tralhas que preferia ignorar.
Disfarçava o desconforto quando o calendário se cumpria e as coisas que dizia não se enquadravam nos assuntos tabu. Voltava a desaparecer, inventava os motivos depois, sempre que as voltas da conversa descambavam nos subúrbios do seu maior temor. Talvez um grande amor, o dessa altura, ainda à experiência para adivinhar o que renderia outro capítulo que nasceria prenunciado no seu fim.

A mentira agarrada era apenas destinada a preservar-lhe a reputação ao seu olhar, o choque a evitar que afinal era sua a culpa da falência de cada uma das relações desperdiçadas num impulso infantil. Por isso a cultivava e assim adiava o momento de se sentir abaixo de cão. Não tinha a razão, mas invocava os pretextos que silenciavam a voz que a verdade gritaria.
Por isso ignorou, sem hesitar, o apelo final da ameaça que pressentia ao seu castelo de areia com janelas de cristal. Preferia mil vezes mentir, para assim poder fugir às consequências sobre si, as que acobardavam a sua confissão.
Ninguém lhe faria mal algum. Seria, em causa própria, juiz. E executaria a sentença, tipo dois em um.

Mas a mentira agarrada era ferida gangrenada e da boca já afloravam os sinais da infecção. Falava o coração. Consciência torturada, a verdade camuflada em paninhos quentes e falsas questões. Chacinava as ilusões para salvar o que lhe restava da dignidade que arrastava pela mentira convertida num lodaçal interior. Sacrificava até o amor, na ânsia de preservar a todo o custo uma imagem moldada em barro cru. Que desfalecia na falsidade do que dizia, cristalizada a fobia de se ver sob o holofote inquisitorial. Derretia sob o calor da sua transpiração intravenosa, oculta da vista, distante do coração. Na sua cabeça cansada pela carga dos juízos de valor que se transformavam em dor quando os apontava à sua pessoa.
Queria sentir-se especial. Não o conseguia e por isso fugia sob as mantas que cobriam as mazelas que a leviandade acarretou.

Mentia pela sua salvação, resgatava a convicção ao cadafalso da realidade exposta a nu. A carne que fraquejava e o instinto que preservava o respeito como um congelador. Para utilização futura, que o passado avariou e a verdade descongelaria. Certo dia surgiu liquefeita, toda espalhada pelo chão. À vista desarmada de quem procedeu à identificação posterior, uma história mal contada que o calor desconstruiu. De fio a pavio, o argumento desarticulado de um conto encantado onde a realeza era personagem de tablóide e acelerava a cada beijo a passada, rumo ao batráquio original.
Peças soltas encadeadas, reacções descontroladas, veio à tona a explicação. Como quem perde um irmão, sentou-se na areia dispersa pelo vento e chorou ignorando o frio. Mas aceitou o desafio.

Na noite da grande bronca, depois de uma conversa franca que tudo esclareceu, sentiu-se mais feliz. Tudo aquilo confessado, perdão para o pecado que lhe agigantava o nariz.
Despediu-se com ternura, arquivou a amargura e partiu em busca de outro beijo para quebrar a maldição.

Deu o salto do desejo para o nenúfar mais à mão.

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publicado por shark às 00:45 | linque da posta | sou todo ouvidos