MILÍCIA POPULAR

Descobriram que se tratava de um assassino de crianças, violara duas delas até. Dizia-se.

E o povo da aldeia, em surdina, começou a falar coisas estranhas, ódio entre dentes que os olhos cuspiam à passagem do ancião.

Os dois únicos petizes da terra deixaram de brincar junto à casa do recém-chegado, o homem que descobriram ter sido libertado da prisão depois de cumpridos apenas doze anos da pena que não metia dó a ninguém naquele lugar onde o homem decidira passar os últimos anos da sua vida à solta no meio das pessoas normais.

Ninguém lhe vendia fosse o que fosse, ninguém o cumprimentava e toda a gente se desviava do seu caminho conspurcado por crimes de um passado que alguém, dizia-se, lhe descobriu.

 

Um dia o povo decidiu. Reuniram os rapazes e os homens mais capazes da aldeia junto ao pelourinho e juraram determinação na hora de tudo acontecer.

O homem, esse bandido, acabaria por morrer a golpes de sachola e de ancinho e toda a gente na aldeia sabia que ninguém foi, ninguém vira ou participara no ajuste de contas com o canalha daqueles a quem ninguém valha num momento de aflição.

A culpa morreria solteira, não fora no dia seguinte chegar à aldeia um forasteiro que o Cabo António da GNR identificou em segredo a um primo que contou à mulher que espalhou como um vírus a verdade tão difícil de engolir que alguém finalmente se chibou.

publicado por shark às 22:38 | linque da posta | sou todo ouvidos