A POSTA NO PROVADOR

Despiu as calças sem tirar os olhos dos dela. Sem pressas, sem falsas promessas que o relevo destacado não pudesse desmentir na condição.

Tentou controlar a emoção para se exibir confiante na sua pele de amante, para em momento algum reflectir a ansiedade que lhe transmitia tanta vontade de brilhar naquele pedaço de vida partilhado.

 

Deitou-se ao seu lado devagar, tentando não hesitar na iniciativa que lhe competia. Ou pelo menos era isso que pretendia demonstrar, seguro de si. Por fora. O medo que o impedia agora de ser igual a si próprio, absurdo, à prova nas alucinações disparadas pelos canhões na sua cabeça a latejar.

As mãos entretidas a passear pela pele desejada. A boca na nuca, colada, e ela a entregar-se sem reservas nem pressões.

O rumo natural das decisões já tomadas, as medidas já tiradas à situação que lhes competia agora viver.

 

Pelo amor embrionário e pelo prazer necessário, disponível. E ele a sentir-se cada vez mais perecível na frescura do sentido figurado que já quase jazia pendurado num acto vil de traição do corpo embebedado pela pressão estapafúrdia.

 

Foi essa a lição que aprendeu e que jamais repetiu, restando-lhe o sorriso de quem ri de si próprio enquanto despe as calças sem tirar os olhos da amante que se revelara tão paciente no dia em que lhe provou sem humilhar que em momento algum teria, de facto, algo a provar.

publicado por shark às 01:56 | linque da posta | sou todo ouvidos