NÃO PARES...

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Foto: sharkinho

Suave, gentil. Sem pressas. A deslizar num corpo como se os dedos usassem patins, numa dança elegante recortada no fundo branco de uma pista. Degelo. A acontecer aos poucos, na ressaca de beijos loucos deixados a arder num pedaço de pele.
Cada vez mais intenso o som das respirações, alimentar os corações como fornalhas de um navio a (todo o) vapor.
De oxigénio expirado depois, outro elemento no sopro dos dois, na corrente do ar elevado pelo calor.
Tempestade tropical, prestes a abater-se sobre o local onde as vontades já exigem mais fricção. Contacto emoção, apelo selvagem libertado pela força do temporal.

Chuva salgada, espalhada aos solavancos pelos amantes num colchão. O poder de uma mão, ansiosa por tocar. Energia a irradiar, como a resistência de um aquecedor. Sobretensão, nos instantes sublimes de um todo bom condutor. Da electricidade à solta percorrendo as pontas de cada pelo ouriçado no arrepio de um esticão. O choque de descobrir em cada toque uma poderosa sensação, como se fosse aquela a primeira vez naquele lugar. Num ponto qualquer da pessoa que se entrega e da que possui.

Faíscas em cada boca, convertidas no prazer acrescentado de um som. Gritos e gemidos, sussurros aos ouvidos, sede do que é bom. Absorvido pelos poros com a sofreguidão de uma raiz no deserto em redor. O mundo que parou lá fora e só acontece agora naquele regaço interior.
Apenas ali, no espaço sideral onde as estrelas explodem nos olhares perdidos como fogo de artifício privativo, num espectáculo natural de luz e de cor, sensual. O universo condensado numa pequena fracção do tempo em que se amou, arco íris fantasiado no nome que se pronunciou. Apenas ali, os corpos, muito mais além as mentes e as imaginações. Em voo planado sobre uma cama revolta pelos espasmos e pelas contracções. Pelo movimento constante do desejo sob os lençóis. Escondidos do frio, amor ao desafio, passagem do testemunho numa desgarrada que se cantou a correr para a meta comum.

Quando dois se fazem um.
Quando as nuvens se afastam no horizonte e o rio por debaixo da ponte corre sereno, sem pressa outra vez, enroscado no abraço das margens que retribuem a carícia que a água, doce, lhes ofereceu.
O sexo molhado pelo desejo transpirado repousa então, alerta porém. Mudança de vento, as sobras de tempo precioso para gastar. Coisas boas para lembrar. Para repetir, também.
Na memória recente dos amantes abraçados ecoa o ribombar dos trovões da borrasca que passou. Nos olhos, o fogo brando que ateou ilumina um dedo acordado que desliza subtil, uma fonte de promessas.

Suave, gentil.
Sem pressas...
publicado por shark às 00:18 | linque da posta | sou todo ouvidos