IMPLOSÃO

A chuva a bater na vidraça, cliché, os ouvidos a doer com o som imaginado num espaço inventado, realidade imaterial, olhos postos na profundidade sem fim de uma parede branca diante dos lençóis de cetim sob o corpo inerte da pessoa que oscila entre a morte cerebral e o último suspiro emocional, vento suão que sopra a partir do coração acelerado que às tantas se anseia parado porque a chuva não pára de bater e o peito começa a doer na cabeça a sonhar acordada, a consciência estagnada numa mente letárgica, dormente, uma lagoa moribunda, tão cheia, tão funda, iluminada de raspão pela lua manchada, no céu, pelas crateras que o tempo lhe provocou de cada vez que nela se despenhou um calhau cuspido pelo espaço como um enorme caroço de um fruto marciano, lançado ao engano numa viagem só de ida que terminou numa partida do destino como a que chovia agora na vidraça, lá fora, a maior ameaça para a réstia de sanidade naquela fuga à realidade, olhos vidrados na profundidade sem fim de uma superfície opaca onde o pensamento se escapa para um lugar distante, a obsessão constante, para fugir da verdade incómoda que aos poucos o retalhou em pedaços pequenos de memórias perturbadoras e intensas demais. 

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publicado por shark às 16:25 | linque da posta | sou todo ouvidos