JÁ CÁ NÃO ESTÁ QUEM POSTOU

É lição aprendida desde tenra idade. Optar por qualquer dos extremos corresponde sempre a um desafio que nem todos estamos à altura de abraçar. Isto é válido para as posições assumidas como, por exemplo, para relações de qualquer tipo entre as pessoas.

Não falo da moderação que nos é exigida a quase todo o tempo, sob pena de nos pintarem excêntricos ou mesmo marginais, mas do impulso natural e social para o refúgio nas meias-tintas.

No meu caso concreto, esse refúgio assumido por parte de alguém só serve para borrar a pintura e eu vou tentar explicar porquê.

 

Na perspectiva de uma pessoa de extremos, das que é comum afirmarmos capazes do melhor como do pior, as meias-tintas constituem um factor permanente de desorientação. Inevitavelmente as posições que não são carne nem são peixe assumem contornos que levam a considerá-las dignas de vegetarianos, devendo-se isto à preguiça mental (e outras) que uma atitude assim-assim normalmente implica.

Aos olhos da pessoa de extremos, essa postura corresponde a uma indefinição que impossibilita de chamar os bois pelos nomes ou de encaixar as coisas (e as emoções) no seu devido lugar.

 

Claro que a maioria não admira e muito menos respeita os extremistas (e não estou a falar de política ou de religião), pela ameaça que estes representam à flexibilidade de critérios que as meias-tintas permitem a quem gosta de balançar ao sabor do vento mais favorável ou da corrente que está a dar. São incómodas, as pessoas de extremos, por exigirem a todo o tempo que as imagens reais sejam sempre visionadas em alta definição. Não aceitam, essas pessoas, o tom cinzento que resulta da mistura das tintas que no meio do barulho das luzes oferece tanta escapatória para os factos que se encubram ou as coisas que não se querem dizer. E rejeitam o daltonismo como desculpa seja para quem for.

 

Ensinam-nos por isso, a vida e os outros, a abdicarmos bem cedo das convicções demasiado firmes ou das posições que possam ser interpretadas como radicais. Seguimos o exemplo da raposa manhosa e nunca o do rinoceronte bruto mas frontal. Ou devemos seguir, se quisermos garantir uma perfeita integração social e mesmo a aceitação por parte de quem connosco mantenha uma relação amorosa ou outra qualquer.

Tudo, sobretudo as reacções de quem partilha o nosso espaço e/ou o nosso tempo, está concebido para impor pela força se necessário o tal véu que não passa de um paninho quente para esconder o truque por detrás da prestidigitação que caracteriza a maioria das relações de merda que acabamos por manter com as outras pessoas.

E de pouco vale invocar algum tipo de ideal ou de valor quando tentamos encostar alguém à parede da sinceridade espontânea que a sociedade aos poucos transforma num erro letal.

 

As pessoas de extremos acabam por isso isoladas, devidamente rotuladas por quem as atura ou apenas tolera como inconvenientes, insistentes, maçadoras ou simplesmente indesejáveis como companhia porque a malta procura é gente bem disposta e sem veia para complicações, capazes de admitirem todo o tipo de excepções à regra (que nunca passa de uma mera linha de orientação) mesmo quando a desmentem por completo. O absurdo nunca consta do menu, tal como a falta de lógica nas contradições.

Uma relação dos nossos dias parece ter que pautar-se pela leveza sustentável e pela certeza inabalável de que o que hoje é verdade poderá ser mentira amanhã. Ou vice-versa.

 

E por isso eu, que não sou uma pessoa de extremos (cruzes credo!), não percebo como é que ainda há quem imole a imagem e dê cabo da vida com os seus fundamentalismos quando é mais do que evidente que a coisa está boa é para quem, como diz o povo, possua um mamar doce e, acima de tudo, perceba por instinto quando está na hora certa para se calar. 

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publicado por shark às 16:54 | linque da posta | sou todo ouvidos