DAS FAENAS VERBAIS

Já referi por diversas vezes que não sou aficionado das touradas. É um direito que me assiste e possuo com toda a certeza argumentos tão “incontestáveis” como os sentem os opositores à minha posição acerca do assunto.

Contudo, não me visto paladino dos direitos dos animais ao ponto de ter a pachorra de me juntar às manifestações promovidas pela Animal ou mesmo de insistir em aproveitar este meu tempo de antena para zurzir numa qualquer das muitas touradas que este país produz.

Nada disto invalida que quando me deparo com debates acerca da questão tento perceber se existe algum lado com a razão definitiva, algum argumento que pela sua pertinência ou inteligência seja capaz de desarmar um dos lados da barricada.

 

Prendi a atenção no último “Eixo do Mal” e calhou aterrar no meio do assunto que dá corpo a esta posta, precisamente as touradas, e ouvi cada um dos quatro intervenientes no programa definir a sua posição na matéria.

Surpreendeu-me a unanimidade, confesso. Todos se admitiram a favor do espectáculo em causa e um deles até juntou a questão dos animais selvagens no circo como uma causa pela qual se bateria de bom grado. Ele lá sabe porquê.

E houve um que para além de me deixar surpreso pela sua condição de aficionado, conseguiu com a natureza da sua argumentação motivar-me a escrever uma posta.

É o Daniel Oliveira, nosso colega blogueiro, e como já antes discordei das suas afirmações públicas gostava de deixar bem claro que não o cito senão por ter sido o único que me pareceu disparatado na sua argumentação.

Eu explico porquê.
 

É que o moderador do programa confrontou o Daniel Oliveira com uma versão particularmente sangrenta que acontece nos Açores, alegadamente onde os animais são picados com frequência e a coisa assume contornos mais cruéis.

Desconheço essa tourada em concreto e por isso remeto-me para o contraponto que o nosso colega Daniel entendeu ser o mais adequado.

Ele pegou naquele argumento estafado das condições em que os bovinos são mantidos, em espaços reduzidos ou coisa que o valha.

E eu pego também por aí, pela debilidade de tal comparação. É que o Daniel, sempre polémico na definição das suas prioridades, entende que as condições em que são mantidos os animais para garantirem os bifes do lombo e o leite que estou certo ele também consome, para a nossa alimentação, servem de atenuante aos maus tratos praticados em nome de tradição lúdica que tanto o seduz.

A comparação parece-me infeliz sem grande esforço de raciocínio, nomeadamente porque ao servir-se de tal termo de comparação assume por inerência que a crueldade praticada é similar. E isso, vindo de uma figura pública que por acaso até bloga (ou vice-versa) e se assume adepto da tourada, não soa inteligente e da pertinência estamos conversados.

 

Mas como se não bastasse o argumento fácil acima, tanto o Daniel como qualquer dos restantes companheiros invocaram a razão principal. Basicamente a mesma que serviu para acabar com o problema de Barrancos, a inefável tradição.

A tradição já não é o que era e por isso mesmo quase toda a gente se insurge contra actividades antigas mas de grande barbárie como as lutas de galos ou de cães. Com o tempo as pessoas aperceberam-se de que se trata de coisas estúpidas, tão estúpidas como a tradicional violência doméstica que estou certo mesmo o Daniel Oliveira não aceita como tradição a manter.

 

Agora sei que fiz uma comparação à Daniel Oliveira, mas eu não sou pago para dizer as minhas tonteiras em horário nobre e posso, na minha condição de anónimo cidadão, valer-me das comparações excessivas ou despropositadas ou dos argumentos mais rebuscados para defender as minhas posições. E também eu sinto o apelo do argumento fácil, que aparentemente desminta os outros com o peso daquela ideia que temos em putos, eu faço mal mas tu ainda fazes pior, a atenuante de treta que faz a nossa ideia ou posição parecer um bocadinho menos mal no boneco.

 

O meu problema, insisto, não tem a ver com o Daniel Oliveira (que nunca escondi não ser alguém a quem reconheça um mérito especial que o possa destacar de entre outras pessoas) mas sim com o calibre da argumentação com que se defendem questões polémicas precisamente por não serem, por não poderem ser consensuais. Essa característica não legitima a argumentação de treta e que quase soa para imbecis ou distraídos, pelo tal raciocínio que acima formulei.

E a que serviu de mote a esta prosa que o nosso colega decerto entenderia (se a lesse) como um ataque pessoal é tão legítima como eu afirmar aqui que um gajo capaz de defender a tourada jamais deveria ser autorizado a manter em casa qualquer animal de estimação. Pela associação de ideias tão fácil como a de comparar os alhos de uma indignidade “necessária” para garantir a alimentação da malta com os bugalhos de uma outra que acontece com o único pretexto de entreter de forma que sinto como cruel e desnecessária alguns dos comensais. 

publicado por shark às 21:32 | linque da posta | sou todo ouvidos