VAMOS FALAR DO TEMPO?
Sempre gostei desta frase e nunca me interessou saber porquê. Ou melhor, nunca me debrucei sobre a verdade imensa que pode englobar uma frase assim. É uma definição perfeita para tudo aquilo que o tempo pode mudar, pelo simples facto de passar e fazer questão de deixar a sua marca.
Rugas da expressão que fazemos sempre que analisamos tudo quanto o tempo transforma, inclusive dentro de nós que arrojamos medi-lo, como se fossemos os donos do tempo que afinal exerce a sua vingança passando mais depressa quando estamos a gostar e avançando insuportavelmente devagar quando encaixamos um frete num segmento dessa recta que percorremos em ziguezagues que o acaso ou um deus predestina para cada um de nós.
Caprichos que se fazem sentir sempre que tentamos planear a nossa vida ou adiamos algo para depois. Como peças de um gigantesco e permanente dominó cujas peças podem a qualquer momento aterrar-nos nas cabeças ou nas de quem dependemos e assim, sem aviso prévio, acabar-se o tempo que o relógio de pulso insiste medir mesmo depois de definitivamente parado o coração do utilizador. Um jogo, afinal, que tentamos jogar a sério, com regras definidas que tentamos respeitar no sentido de orientar algo que jamais fará sentido algum. Regras que o tempo se encarregará de redefinir de acordo com a sua disposição, umas vezes até sim e na maioria é certo que não.
Imprevisível nos humores como a sua natureza caprichosa denuncia.
O tempo nunca adia um passo a dar, tiquetaque, o tempo sempre a contar, decrescente, enquanto se extingue aos poucos a existência que desdenhamos como se nos acreditássemos imortais em tudo menos no medo que o tempo deixe de contar para nós. Ou para quem nos faça falta para o partilhar e às vezes ignoramos na sua condição imprescindível e de que um dia os caprichos do tempo nos podem privar.
É como subir a todo o tempo umas escadas que a qualquer momento podem ejectar os próprios degraus, as bicadas do tempo sentidas como ferrões de lacraus a que chamamos nostalgia, saudade, agonia, tristeza ou ainda pior, sempre que nos foge o chão sob os pés.
Caprichos de tempo, aquele que a todo o momento nos verga às suas consequências, nem que se manifestem de forma passiva sob a forma de um castigo que jamais iremos ignorar.
A consciência de que desperdiçamos tanto tempo que quase não damos por ele a passar.