A POSTA NOS PRAZERES ALARGADOS

Se há coisa capaz de me arrancar um sorriso de satisfação é a perspectiva de um fim-de-semana alargado.

Claro que tresanda a preguiça, esta minha costela de trabalhador por conta de outrem que tanto atrapalha as hipóteses de sucesso na qualidade de empreendedor, mas não é.

Sou capaz de vergar a mola que nem um doido, bastando sentir-me em forma e estar em causa um trabalho que me dê prazer. Contudo, nunca consegui equiparar o prazer de enfiar o nariz numa pilha de papéis para lhes dar a devida sequência com o de enfiar o mesmo apêndice nas amêijoas à bulhão pato que aprecio particularmente em esplanadas à beira-mar.

 

É essa a questão que tenho que enfrentar, o dilema entre o apelo da crise que me diz para aproveitar cada segundo para esmifrar o que resta no mercado que me compete explorar e o chamamento irresistível da vida como se gosta, entretido a desbundar um dia suplementar de prazeres a sério e de toda a ordem.

Este último, admito, é uma perdição desde miúdo. Descobri a diferença entre os dias normais de expediente e os ditos de festa em tenra idade, pouco mais ou menos quando a Igreja deixou de conseguir impingir-me a ideia do seu Deus.

Prematuro nessa revelação, nunca mais consegui ultrapassar a noção de que trabalho porque a isso sou obrigado e bom seria trabalhar quando me desse na gana, numa espécie de férias das ditas cujas (que às vezes a pessoa pode, sei lá, enjoar…), um intervalo na curtição para lhe redescobrir o devido valor.

 

Apesar da posição politicamente correcta dentro dos cânones hipócritas destes dias, a que a maioria assume exibindo a falsa contrariedade de um ano cheio de pontes, que mau para o país e mais não sei o quê, eu não posso deixar de os olhar com a piedade de quem topa logo que são bacanos/as que se preparam na prática para substituir a hora de ponta por muitas horas sem ponta num dormitório qualquer.

Não é essa a forma como perspectivo mais um dia capaz de fornecer o pretexto ideal para usufruirmos da existência no que ela tem de melhor.

E não consigo convencer esta minha mona teimosa a encaixar nos arquivos o registo de um dia de trabalho normal, a par com as memórias de uma sardinhada entre amigos, uma bebedeira ligeira daquelas que se instalam de mansinho ao fim de umas horas numa mesa de bons conversadores ou um qualquer momento de luxo partilhado com alguém especial.

 

Assim sendo, o bom do tubarão, empresário em nome individual, business man do tempo dos yuppies (renegado em matéria de indumentária), prepara-se para abraçar mais um período santo como o são todos os que implicam o tal dia ou dois a mais, mesmo que não celebrem ressurreições pois milagre é mesmo uma pessoa sentir-se em condições para poder celebrar, isso sim, os muitos e intensos prazeres que uma vida nos dá quando não estamos encafuados num ganha-pão qualquer.

 

E é isso que o vosso amigo esqualo quer, não desaproveitando o ensejo para estender a cada um/a de vós os votos sinceros de que consigam aproveitar estes próximos três dias no preenchimento das tais memórias que nos ajudam imenso a gostar desta maravilha que a vida pode e deve ser.

publicado por shark às 11:43 | linque da posta | sou todo ouvidos