CONTO DE NATAL I




Ou de como sou do contra. Ou ainda porque não me apetece fazer de conta que no Natal deixa de existir o lado negro do mundo só por causa das luzes e das renas e do outro vestido de vermelho, mais dos mérriscristmas e votos de paz na terra aos homens de boa vontade (e os outros??). Ou então porque sou uma ateia que há-de arder nas chamas do inferno e eu ralada com isso.
Ou só porque me apetece, e pronto.



Ainda tinha tentado reconhecer-se, numa encarquilhada fotografia do casamento. O ramo de rosas amarelo-pálido, levemente descaído sobre a seda selvagem do vestido. O reflexo do flash nos olhos, brilhantes, do choro nervoso que a consumira horas antes do momento mais importante da sua vida. Brilhantes agora de novo, do amor que a inundava enquanto sorria para o retrato, da paixão por aquele homem que lhe segurava ternamente no braço. Incendiados, os olhos, do calor que já a possuía e se espalhava por todo o seu corpo como lava vagarosa, só de antecipar a sua primeira noite enquanto marido e mulher, ele a invadi-la, as mãos nas ancas a agarrá-la com firmeza e os cabelos espalhados no seu peito.

Ainda tinha pensado que amanhã era outro dia, já sem a raiva silenciosa pelo cheiro de perfume barato nas suas camisas, que às noites sem dormir e o corpo seco, consumido de ausência e desilusão, se seguiriam noites de corpos encaixados um no outro como metades de um mesmo fruto e dias de cheiros mornos de peles saídas do banho, café e sexo acabado de fazer.

E então, recordou o dia em que lhe dissera, desfigurada de lágrimas e dor: "Olha para mim! Pinto-me para que o meu verdadeiro rosto não fique pendurado na tua memória como uma tela esquecida". Ele tinha olhado para ela em silêncio, como se visse através dela e, com gestos precisos e de uma lentidão cruelmente propositada, sem despegar os seus olhos dos dela, pegara nas malas e saíra porta fora, para dentro da noite, para fora da sua vida.

Sorriu. Antes um esgar dolorido, que lhe percorreu as feições finas e cansadas. Ergueu o copo semi-cheio e, num brinde mudo, engoliu a cápsula de cianeto com o champanhe francês que lhe restava.

Mar
publicado por shark às 23:15 | linque da posta | sou todo ouvidos