A POSTA SURPRESA

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Foto: sharkinho

Se há coisa que raramente me acontece é ficar sem palavras. (e menos ainda acordar às 4 da matina e sentar-me na cama como que em piloto automático - leia-se zombie - para registar o que me pareceu então ser o único início possível para um post, depois de ter estado um serão inteiro, em vão, a espremer os miolos sobre o assunto...)
Ficar sem palavras é estranho. Uma pessoa engole em seco, três, quatro vezes, respira fundo a ver se as tipas sobem com a pressão do ar acumulado no estômago (virão as palavras do estômago, a propósito?), abre e fecha a boca como se fosse um peixe em apneia e nada. Nada. Nem um decibelzito de som para amostra. É perturbador. Principalmente, para alguém que fala pelos cotovelos, antebraços e até pelos dedos todos que tem nas mãos.

Deixar alguém sem palavras requer um conjunto de características que não está ao alcance de qualquer comum mortal. Uma capacidade argumentativa superior, inteligência acima da média, fluência no discurso e um raciocínio estratégico capaz de imprimir um tom suficientemente displicente na conversa para, coisa que também se deve saber à partida, conseguir despertar o demoniozinho "do contra" que habita dentro de certos seres. (o meu é verde com umas manchas amarelinhas, antenas esticadas para captar tudo, o sacana, e usa uma capa à herói - mania que se desenrasca de todos os desafios). Enfim, continuando a tergiversar porque não sei como hei-de abordar a questão principal, certo é que o gajo, o demónio do contra, arrebitou as orelhas (não disse ali mas o meu também tem, pontiagudas), pensou deixa cá ver se o tom displicente é mesmo porque ele não faz assim muita questão da coisa e aí eu digo logo que sim, se é porque ele até faz mas está a tentar embarrilar-me ou é porque ele acredita mesmo no que está a dizer e então fico toda baralhada (ah, o género é feminino, óbvio, portanto tenho que reformular e dizer que tenho então uma "demónia" do contra dentro de mim). (já me perdi, caraças)

Fiquei baralhada, resumindo. Um blogue é assim uma coisa muito "pessoal e intransmissível", algo que equivale à nossa gaveta das cuecas e passá-la a outra pessoa - mesmo que seja o nosso mais que tudo - para que lá guarde os seus peúgos, requer um grau de confiança difícil de obter, mesmo nas relações mais próximas.
Fiquei encantada, em simultâneo, por ele considerar que sou capaz - apesar de eu não achar o mesmo - de honrar os pergaminhos do Charco durante a sua ausência, por não temer nem por um bocadinho, que eu lhe destrua a reputação de blogue de qualidade, afugente todos os seus comentadores e visitantes, enfim, que lhe acabe com isto de vez, à conta das parvoíces e do mau feitio que me caracterizam e que não me privarei de vir aqui debitar, se para tal me der na mona...
Fiquei rendida, pronto. De novo.
E não podia deixar passar esta oportunidade de aceitar as chaves dum "flat" desta categoria, situado num condomínio fechado de luxo, com uma vizinhança do melhor que há, relvados a perder de vista, poças de água para chapinhar e um terraço virado para o mar, banhado pela luz do sol ou das estrelas, conforme o caso, e à mercê do Vento Suão de vez em quando.

Disse logo foi que não faço faxina, não cozinho, não faço fretes, não escrevo por obrigação, não aturo gente mal educada, não escrevo o que os outros gostariam de ler, abro e fecho a caixa de comentários quando quiser e, se me der na bolha, fico só ali estendida na chaise longue no terraço, a bronzear-me, sem fazer a ponta de um corno, pelo tempo que me apetecer.
Estamos entendidos, ó senhorio??

E podem considerar isto, olhem sei lá, uma Declaração de Princípios, ou assim.

Mar
publicado por shark às 11:10 | linque da posta | sou todo ouvidos