MST x RAP - O CLASH DOS TITÃS

 

Tenho acompanhado com moderado interesse, embora com a atenção que nós anónimos sempre prestamos às figuras públicas e às figurinhas que fazem, a troca de piropos entre o portista Miguel Sousa Tavares e o benfiquista Ricardo Araújo Pereira.

E faço-o por várias razões, nomeadamente pela curiosidade que me desperta o facto de uma simples divergência futebolística entre cidadãos poder alimentar páginas da Imprensa dita séria a que os dois contendores têm acesso e usam sem hesitações como catapulta para as suas invectivas.

 

Claro que o meu coração pende para o RAP, não só porque partilhamos o benfiquismo latente mas também porque qualquer Gato Fedorento possui a seu favor o facto de ter sido blogueiro e isso aproxima-nos sempre um nadinha. Por outro lado, e por uma questão de gosto pessoal, aprecio gente com sentido de humor e nisso o RAP é intocável.

No entanto, confesso que nutro alguma admiração pelo MST pela forma como escreve e como fala. É um homem de convicções firmes, ao ponto de se prestar a enfrentar a ira de uma multidão de estivadores só para defender um ponto de vista. E isso torna-o sempre um osso duro de roer para os seus adversários de circunstância, até porque ele não deixa de dar uma no cravo e outra na ferradura quando sente que a “sua dama” possui calcanhares de Aquiles.

 

Assim sendo, presto-me a dar alguma atenção aos argumentos de ambos embora não pretenda aqui dissecá-los. É que está em causa apenas a trica do costume no contexto da rivalidade entre águias e dragões, uma espécie de jogo de matraquilhos verbal que os dois protagonistas jogam bem mas não passa disso mesmo: um jogo a feijões, ainda que disputado num palco cheio de visibilidade como o dos jornais que se prestam a fazer de estádio para estas discussões entre os nossos figurões (mesmo quando em causa estão as manas Salgado e a sua relevância no folhetim do apito dourado que pela ferrugem já toda a gente percebeu ser feito de latão).

Ou seja, e não querendo minimizar o calibre dos dois players em causa (quem sou eu para o fazer?), temos em cima da mesa (a dos matrecos) uma bola feita de vento que sopra para canto os vários assuntos a que tanto o RAP com a sua abordagem humorística como o MST na sua versão sisuda podem conferir a projecção necessária para a respectiva discussão pública.

 

Claro que ninguém, nem mesmo o homem do Equador, consegue aguentar um esforço permanente de seriedade e de pertinência e cedo ou tarde todos sentimos a falta de um bocadinho de fait divers para desanuviar. O problema é que os dois "adversários" de circunstância levam a sério mesmo os temas da treta, a que acresce o pequeno pormenor de ambos possuírem um tempo de antena que não é de desdenhar e uma capacidade de mobilização das massas proporcional ao estatuto de que ambos se mostram merecedores.

E de repente a malta abandona o Freeport, o BPN, o afundanço financeiro generalizado e todas as questões maçadoras que os opinion makers nacionais pudessem sentir-se tentados a trazer para o primeiro plano e concentramo-nos (quase) todos na bola que, toda a gente sabe, tem reservado cerca de um terço do tempo útil em qualquer noticiário televisivo e muito mais do que isso nas conversas de café.

 

Com este último parágrafo encosto-me descaradamente à postura careta que nem sequer é a que mais me favorece aos olhos de quem ainda me concede alguma atenção, mas apesar de simpatizar muito mais com o humor sublime do RAP não consigo renegar a costela de Grande Educador que partilho com o MST (à minha reduzida escala e sem querer com isto colocar-me em bicos de pés – o que me dá cabo dos sapatos e eu não sou pago pelos jornais e revistas para debitar umas larachas acerca do que me vai na tola).

Além disso, e por isso mesmo, sinto na pele os efeitos nefastos da crise que toca a todos quantos fazem de borla e em campos pelados os mesmos exercícios sem qualquer relevância e não consigo reunir o humor do RAP e o mau feitio do MST, indispensáveis para (a par com a inteligência, o talento e a projecção dos dois cromos) conseguir cingir-me aos assuntos verdadeiramente importantes para a Nação que presta atenção às Carolinas e aos Pintos da Costa deste nosso mundo de brincar.

 

E ainda por cima acumulam-se na minha secretária cada vez mais contas por pagar…

 

 

publicado por shark às 10:30 | linque da posta | sou todo ouvidos