A POSTA QUE A (MINHA) VIDA É MESMO ASSIM

Um dos problemas com que me confronto de cada vez que abraço uma utopia é raramente distinguir se estou perante um gesto corajoso ou um acto de cobardia.

A questão é simples e o dilema coloca-se quando comparo a minha visão das coisas e respectiva aplicação prática com a reacção dos outros às minhas teorias e, ainda pior, à prática bem intencionada mas que sempre acaba por colidir com os factos de uma realidade feita de pressupostos e de padrões sempre difíceis de ultrapassar com base numa atitude que se possa considerar realista.

Ou seja, às boas intenções que qualquer delírio utópico de uma pessoa sem vontade de prejudicar os outros pressupõe correspondem as interpretações feitas à luz das regras convencionais do jogo em causa.

E isso acaba por criar as condições para surgirem problemas, por vezes irresolúveis, que não ocorreriam se optasse sempre pelo caminho mais fácil. O do costume, seja ele qual for.

 

O dilema de que falo acima nasce precisamente da perspectiva com que os outros entendem as minhas ambições e, ainda pior outra vez, a natureza das minhas motivações.

A reacção mais comum é a do cepticismo. O gajo (eu) é meio maluco ou, no mínimo, um nadinha excêntrico e tem que se dar o devido desconto ou mesmo desviá-lo desse rumo sem hipóteses de sucesso e que só serve para agitar demasiado as águas e perturbar o normal funcionamento das instituições (que neste caso são pessoas e seus hábitos de consumo da vida).

Outra das que vão acontecendo é a do fenómeno de rejeição. Se faço algo de impensável à luz dos cânones em voga é porque se calhar não sou digno de confiança e tenho em mente algo de reprovável.

E existe uma terceira, a do paternalismo. O gajo é boa pessoa mas tende a construir castelos de cartas que sistematicamente acabam por desabar sobre si próprio e os que o rodeiam.

 

É esta última que justifica o dito dilema. A noção como a sinto é a de que não tendo capacidade para enfrentar uma realidade limitadora e não raras vezes hostil refugio-me em mundos perfeitos que tento, lunático, construir no meu micro mundo individual.

Soa a fuga em frente e acaba por me deixar sempre mal no boneco perante os outros como perante mim mesmo. Soa a cobardia inspirada no funcionamento irregular da minha mona e da minha estrutura emocional, acabando por transformar num disparate ou na tal fuga à realidade aquilo que os meus olhos vêem como os tomates necessários para fazer finca pé num caminho alegadamente impossível.

Na prática, acabo quase sempre a braços com um resultado completamente distinto daquele que pretendo obter. Com a agravante de na ressaca dos conflitos que daí derivam acabar por magoar quem me esforço por beneficiar com a irreverência e o inconformismo (como os vejo) que pautam a generalidade das minhas opções.

Acabo mergulhado no desespero de causa de quem precisa salvar o que colocou em causa com um descuido, uma incoerência ou a simples falta de fé dos outros que não têm que aceitar nem mesmo tolerar a minha propensão para fazedor de “milagres” de trazer por casa.

 

Confesso que apesar de ser desmoralizador vou conseguindo adaptar-me ao evidente desajustamento entre as minhas expectativas e aquilo que é viável dentro dos limites de quem se proponha aturar-me as madurezas. É a única alternativa que resta a um sonhador (é esse o rótulo inevitável de qualquer amante das utopias) que não queira vestir a tal pele do cobarde que inventa mundos perfeitos para enfiar a carola na areia como a avestruz enquanto força soluções de compromisso inaceitáveis para quem a vida tenha impedido, à bruta, de sonhar em demasia ou simplesmente prefira evitar a complexidade inerente a um passo comprido demais para o tamanho das suas pernas, o violar de normas que se sentem como limites a não ultrapassar.

Ou apenas porque existem mesmo realidades inconciliáveis com o padrão do que nos ensinaram a aceitar como o de uma vida normal e a aceitação desse facto acaba por constituir o golpe de misericórdia para qualquer veleidade utópica.

 

Isso não me provoca qualquer tipo de desencanto, precisamente porque nunca existem segundas intenções associadas aos meus esforços para contrariar limitações que me impedem de ser plenamente feliz e de oferecer felicidade a quem me quer também enquanto parceiro de vida até ao fim da mesma ou apenas ao longo de um período qualquer, hipóteses sempre em aberto em qualquer tipo de relação amorosa ou outra.

A dúvida, a tal que explano na introdução deste lençol, prende-se apenas com a lógica que coloca em causa a essência do que me move (ou a qualquer idealista) e que, naturalmente, faz toda a diferença na insistência em modelos alternativos que viabilizem os tais impossíveis pelos quais, aliás, nunca deixei de me bater.

 

E mesmo perante as provas do meu insucesso relativo, caso consiga manter o optimismo de quem se julga capaz de enfrentar o mundo inteiro se necessário e de o moldar à medida das circunstâncias específicas com que me deparo ou faço acontecer e não me veja forçado a concluir que não passo de um tonto cobardolas, ainda não é este o dia em que me sinto preparado para abdicar em definitivo das minhas ilusões desproporcionadas ou mesmo desajustadas à realidade “realista” quando esta parece talhada para nos castrar o instinto, a vontade e, bem vistas as coisas, só servir para nos infernizar a existência.

publicado por shark às 12:16 | linque da posta | sou todo ouvidos