A POSTA NO CONFLITO INTERNO

Uma das sensações mais desconcertantes que enfrento enquanto pessoa é a que deriva do conflito de interesses entre a cabeça e o coração.

De resto, não é segredo para quem me acompanha na vida aqui ou lá fora que sou facilmente acossado por essa terrível escaramuça interior. Parecem gatos assanhados dentro de um saco e o saco sou eu, quando a cabeça decide impor ordem e disciplina nos meus comportamentos e o coração (que a conhece meio tonta) levanta a crista para a contrariar.

 

É uma fonte de preocupações, este conflito latente entre a razão e a emoção. Se nenhuma emoção prima pela racionalidade, não é menos certo que há muita razão na maioria das opções de índole emocional. Contudo, nem assim conseguem manter a concórdia. Basta um simples dilema para se esgatanharem e raramente consigo uma solução consensual.

Eu não sei se vocês são assim, mas garanto aos que o não sejam que esta aparente tolice (como o soam quase todas as questões ligadas ao coração tirando enfartes e afins) reflecte-se numa angústia quase dilacerante.

E isto porquê?
 

É que se um gajo se puser a pensar nos factos a coisa até parece confinar-se à carola e presumimos logo que é tiro e queda. Mas não. Se a dita coisa é um assunto que possa interessar ao coração, nem que seja a antiga paixoneta pela vizinha do terceiro bê, lá vem o ventrículo esquerdo botar faladura e baralhar as contas todas. Ou seja, enquanto a cabeça se limita a fornecer a imagem (tudo ficção, claro) da vizinha desnuda sem esquecer de evocar a figura grande e entroncada do respectivo consorte, o coração começa logo aos berros “vai-te à gaja, vai-te à gaja” e conta de imediato com um precioso aliado que, mais abaixo, se põe logo em sentido a aguardar instruções.

Isto, claro, se estivermos a falar de um gajo. Sendo a maioria de nós muito simples e práticos nessas coisas (o coração e companhia até podem ganhar a disputa mas a cabeça não deixa de avaliar a melhor forma de saltar para a varanda do lado não vá o diabo tecê-las), nem sempre um gajo encaixa na generalização.

 

Basta permitir o equilíbrio de forças entre a mente e o músculo desgovernado que alguém entendeu transformar no ícone do dia dos namorados e temos a receita garantida para o desastre. Acontece com frequência, quando somos impulsivos e temos a mania que sabemos pensar. Cedo ou tarde acabamos a flipar com as consequências da brilhante ideia, iniciativa ou tirada que se revela um disparate colossal.

O problema é que os outros (e as outras) são uma realidade exterior ao forro da nossa mona, ainda que os sintamos plantados no coração e sempre a bombar o sangue quente que às vezes nos corre nas veias e até irriga o cérebro com a sua propensão para a maluqueira.

 

É difícil passar uma vida inteira em busca do armistício entre as duas forças em cada ponta da corda que nos compete gerir com o mínimo de nóias, sempre a assapar(*).

 

E com o máximo de felicidade que um gajo seja capaz de (dar a) experimentar.

 

(*) A propósito, a mente diz-me que o destaque de hoje no Sapo é coisa da qual não me devo gabar porque parece mal. Mas o coração, lá está… 

publicado por shark às 19:40 | linque da posta | sou todo ouvidos