FIGURANTE VIRTUAL

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Foto: sharkinho

Aos poucos apagaram-se as luzes no palco e na plateia o vazio assentou. Por detrás das cortinas, o protagonista aclamado espreitava e os aplausos recordava do dia em que o espectáculo começou.
Momentos de glória com o público de pé nos balcões da memória de um tempo de fé.
E nos bastidores contavam-se os amores, ecoavam gargalhadas, escorriam lágrimas pelas histórias acabadas numa dramática encenação.

Pura ilusão, nascida dos laços fictícios de personagens irreais. Próximos demais. As luzes da ribalta ofuscavam os olhares e invertiam-se os papéis. O amor ficcionado nos mais altos decibéis para uma assistência sedenta de emoção. Traídos pelo coração, embrenhavam-se na novela e aquilo que faziam dela era uma cópia quase perfeita de um romance original. Engano fatal.

Não tardavam a perceber que o enredo se aproximava do fim, prenunciavam a última descida do pano sobre a farsa e o engano terminava assim. Com o público de pé nas cadeiras vazias, no silêncio dos dias em que uma peça diferente era inscrita no manuscrito do dramaturgo. A história de um burgo onde era uma vez um casal alemão, outro conto de ficção para encantar a audiência depois da falência da falsa esperança anterior. A verdade do amor que a realidade fantasiou.
Mas a história acabou, arquivada no relicário das emoções teatrais. Fotografias.

As actrizes principais debandavam e decerto já sonhavam os adereços para um novo papel. Mas nunca o admitiam, influenciadas pela trama onde o pano caiu sobre a euforia e a excitação da última representação na peça que saiu.
De cena, com as luzes apagadas e as cadeiras abandonadas ao pó. E o protagonista ficava só, à espreita do que o passado lhe deixou. As lembranças que conservou de um cenário que não lhe servia no imaginário que desenvolvia as histórias sem fim. Fazia de conta que era assim, no final de cada actuação.

E sorria patético, por detrás das cortinas, incapaz de processar a imagem das retinas numa mente que perseguia uma bela utopia que não constava do argumento real.
Na cena final o amor já não acontecia, era pura fantasia. Se calhar um pesadelo, que a realidade é um camartelo a postos para a demolição. Das histórias baseadas na ficção, irrealistas.

No passado a pista que o personagem espreitou sob a pele do artista que um dia acordou.
E foi nesse dia que a nova peça estreou.
publicado por shark às 11:12 | linque da posta | sou todo ouvidos