PALAVRAS DE FICÇÃO

O grupo de palavras proibidas esgueirou-se pelo beco enquanto olhos mal vendados as perseguiam com vontade de as ler. Na penumbra, disfarçadas com capas de bandas desenhadas, as palavras proibidas, clandestinas, guardavam segredos dos quais ninguém podia saber por ser possível fazer mal a alguém com o poder da sabedoria.

Por isso ninguém as queria em liberdade, podiam ser palavras à vontade mas deveriam permanecer isoladas, esquecidas em bocas caladas de onde as deixariam, como sempre, escapar.

 

As palavras proibidas pareciam adivinhar o seu destino mas tentavam em vão contrariar a própria essência, não podiam agitar a consciência fosse a quem fosse ao ponto de lhe despertarem a lucidez. Uma lanterna apontada, a luz tão temida por cada uma das letras do corpo das palavras amordaçadas que sempre conseguiam encontrar uma forma de escapar ao silêncio carcereiro.

Tinham fugido o dia inteiro, mas haviam enriquecido o manancial de conhecimento, mais palavras associadas ao movimento espontâneo de libertação, tantas palavras esclarecedoras que puderam deixar pelo caminho vários pontos de interrogação, carga inútil quando cada frase exclama a sua ideia e reclama a validade de um ponto de vista sem reticências ou hesitações.

 

Eram palavras proibidas, palavras perdidas como as ilusões de quem as aguardava escritas na areia de uma praia ou pintadas nas nuvens do céu. Vagueavam agora pelas ruas de um livro qualquer, por entre as linhas de uma cidade imaginária nascida na cabeça de um autor, insidiosas, subversivas, perigosas pelo contágio da rebelião que alastrava entre os seus estarrecidos leitores.

Eram palavras proibidas que falavam de amores interditos, de romances proscritos por conterem em si a semente de mil revoluções plantadas no ventre da personagem principal numa história que aquelas palavras poderiam reescrever.

 

As palavras que podem doer quando a verdade chama a si o controlo da situação e brotam dos lábios as certezas incómodas e as ideias retrógradas sucumbem à lógica irredutível do progresso na sua inapelável evolução.

 

Olhos mal vendados, ouvidos quase destapados, negligência grosseira na vigilância interesseira dos bufos e guardas prisionais de regimes ditatoriais sem futuro.

Das bocas apenas um sussurro escapou, por entre um beijo à socapa, e foi assim que começou a liberdade a crescer enquanto toda a gente cuidava de ler as palavras proibidas que nesse dia abandonaram em definitivo qualquer tipo de grilhão. 

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publicado por shark às 19:22 | linque da posta