DECIDAM AGORA
Olhamos para o futuro com a esperança inerente a quem sempre acredita que estará presente no dia de amanhã. Fazemos planos, arrogantes, deixamos as coisas importantes para depois.
Esquecemo-nos, deslumbrados, dos planos adiados de tanta gente que nos falta agora, as pessoas que foram embora antes do dia em que julgavam, as pessoas que como nós adiavam os momentos que podiam viver num mais tarde que não lhes aconteceu.
Talvez estejam no céu, como gostamos de os acreditar, ou transformados numa energia a que chamo de amor que lhes permite olhar-nos, tão parvos, enquanto traçamos um rumo para o tal futuro que ninguém pode garantir.
Tudo o que temos, afinal, é o que podemos lembrar, aquilo que fazemos agora que podemos agarrar com as duas mãos e nada nos permite acreditar possível depois.
O tempo que avança, inexorável, com a nossa condição perecível a tomar forma nos espelhos que alguns tentam negar. As rugas que nascem para nos lembrar que a eternidade só é possível no que deixarmos para trás, a verdade que nos faz e que afinal se traduz em tudo aquilo que não deixamos por fazer.
A concretização de um amor que nada tem de errado, a conclusão de cada projecto adiado para quando der mais jeito como seria normal num mundo perfeito no qual os imprevistos, como a morte ou pior, jamais pudessem acontecer com qualquer um de nós.
A lembrança dos nossos avós já partidos, os seus passados debatidos à superfície com base no pouco que conseguimos apurar do que os possa recordar, os seus pecados esquecidos como o pó numa prateleira que alguém, o tempo, cuidará de soprar.
Os nossos filhos a crescer, os netos que não tardam a surgir para nos avisar talvez tarde demais que hoje é o dia de fazermos tudo aquilo que sentimos fazer parte da felicidade como a queremos experimentar.
Olhamos para o futuro como se tudo isto nunca pudesse acabar, com a fé desmedida de quem olha para a vida sem ponderar a hipótese de um fim que queremos sempre tão distante e esquecemos o que é importante com base nessa premissa errada.
A vida tão sagrada que nos compete usufruir como se amanhã pudesse nunca acontecer na nossa percepção individual, como se hoje fosse o dia final no calendário que o acaso reserva para cada um de nós.
O exemplo dos nossos avós, a saudade, os pais que lhes assumem a realidade de um estatuto que sabemos a caminho da nossa pessoa também.
O imperativo moral de abraçar aquilo que se tem agora, antes que tudo se vá embora por força da eterna mudança que compete ao tempo provocar.
Este tempo de que dispomos para amar quem nos queira, ainda que se viole a fronteira desenhada no chão por todos quantos aceitam uma razão supostamente universal e que na prática se confirma causadora de um mal desnecessário.
O sentido obrigatório no código de conduta de quem não alinha na disputa pelo politicamente correcto, de quem acredita que o caminho mais certo é aquele que hoje podemos pisar e ninguém sabe onde irá acabar e por isso se torna tão importante.
Um caminho que acreditamos para sempre porque não o permitimos abandonado às ervas daninhas que brotam de forma espontânea na terra por desbravar, tarefa deixada para amanhã.
Um destino forjado nas decisões desesperadas, nas paixões inesperadas que nos ensinam a viver aquilo que está a acontecer mesmo com ambos os pés fincados no chão que podemos pisar.
Cada passo tão firme, determinado pelo coração que nos sabe comandar.

