A POSTA NA ANESTESIA GERAL DA CONSCIÊNCIA

A questão da eutanásia, agora reavivada em Portugal pelo mediatismo do caso Eluana Englaro, adivinha-se mesmo de feição para reanimar as falanges extremistas do costume. Nomeadamente as que cerraram fileiras aquando da discussão acerca da interrupção voluntária da gravidez, sendo de presumir poucas alterações na composição das hostes.

Isso permite antever a repetição do habitual circo mediático, reunindo em torno da questão a palhaçada da argumentação extremada e os protagonistas de maior destaque dentro dos critérios televisivos, com o país a desperdiçar energia e empenho em debates impossíveis de se validarem enquanto factores de decisão ou mesmo esclarecedores da opinião pública.
 
A cultura democrática portuguesa não dá margem de manobra para discussões sensatas quando o assunto colide com a posição de algum dos poderes político, financeiro ou, no caso concreto, religioso e depressa se esgota a voz do bom senso quando surgem em cena os fetos desmembrados ou os cadáveres adiados que ateiam as almas e destroem pela base qualquer hipótese séria de argumentação.
No caso da eutanásia o melindre atinge o ponto de ebulição porque lida com valores mesmo à mão para alimentarem uma polémica pão e circo das que o povo engole com o fervor de quem toma a hóstia ou, do lado oposto da barricada, de quem deglute a liberdade individual de decisão como um manjar pagão de certezas absolutas.
O equilíbrio, o consenso, esses são apenas miragens nesta terra de oradores inflamados pelo oportunismo, pela hipocrisia ou apenas pela camisola partidária que tragam vestida.
 
O exemplo italiano ilustra (desnuda?) como uma democracia moderna consegue politizar uma questão já tão sensível de lidar fora do âmbito das tricas partidárias, convertendo um assunto sério numa ininteligível peixeirada.
É triste que tal aconteça, pois só mesmo quem não tenha já enfrentado uma situação na qual a eutanásia pudesse oferecer um último recurso contra qualquer forma de agonia ou não possua qualquer interesse no desenho da sociedade que a todos integra poderá permitir-se encarar a questão de forma leviana, abstencionista, e confiar as decisões mais importantes ao pendor circunstancial da balança política.
 
O tema irá certamente aflorar em força e não irão faltar oportunidades para contribuir de alguma forma para o respectivo debate, num futuro próximo.
 

Nesta altura, limito-me a chamar a vossa atenção para o braço de ferro inócuo que se avizinha, para o regresso de um folclore bem popular que apenas consegue dividir para que possa reinar quem quer interferir nas nossas vidas e se apresta para apropriar-se igualmente das nossas consciências.

publicado por shark às 17:21 | linque da posta | sou todo ouvidos