A POSTA NO CALOTE

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Para quem só agora sintonizou esta frequência da blogosfera, devo avisar que o(s) tema(s) de hoje é(são) uma seca.
O tema principal é o futebol, excelente para cativar as audiências como o provam os telejornais e a liderança indisputável da TVI.
Mas o tema não é a Comunicação Social e as suas escolhas inenarráveis em matéria noticiosa. O tema é futebol, mas para lhe conferir alguma credibilidade juntar-lhe-ei uns pós de política e de economia. Aliás, não é novidade a ligação entre os temas que já citei. E assim sendo, nada de novo acrescentarei com a minha reflexão que dá substrato a esta posta.

Se a reflexão é minha, isso deveria bastar para que a maioria de vós mudasse de posto de imediato e procurasse blogues em condições para tratar estes assuntos sérios que os blogueiros de segunda categoria utilizam para se armarem ao pingarelho.
Já em bicos de pés, pigarreio para a assistência, alinho algumas folhas em branco para dar o ar perante as câmaras (os vossos olhares) e passo à reflexão.

Eu, que me afirmo de esquerda e canhoto ao ponto de até a minha pila reflectir essa tendência, essa inclinação para a esquerdalha, tenho tentado explicar a mim próprio onde está a revelar-se essa mesma tendência na governação actual do país. É que a coisa foi entregue à balda (com maioria absoluta) a um partido de esquerda e eu só ouço falar em comboios e em aviões, em mega obras públicas de construção civil que, perdoem-me a xenofobia de pacotilha, é como o dr. João Salgueiro afirmava há dias na SIC Notícias: só diminui o desemprego entre a comunidade ucraniana, moldava e similares.
E isto faz-me lembrar o tempo dos governos de centro-direita que (diz-se) enterravam os milhões em alcatrão para estimularem a economia.

A vitória de ontem do Setúbal sobre o Belenenses começou por me trazer à ideia o facto de ser tão estranho uma equipa com salários em atraso (o Setúbal) obter tão bons resultados como é espantoso um clube sem cheta (o meu Glorioso) eliminar um colosso europeu como o Manchester. É uma receita ganhadora, como o comprovam a classificação da equipa sadina na presente época e a surpreendente presença do Benfica nos oitavos de final da Liga dos Campeões à custa dos milionários britânicos.
E é aqui que entra a política de braços dados com a economia que a sustenta.

O governo socialista, recorrendo a uma estratégia que o Estado tem vindo a aplicar sob o domínio de qualquer corrente ideológica, está a dinamizar a economia com o sistema adoptado pela direcção do Vitória de Setúbal. O segredo está no adiamento dos pagamentos aos fornecedores ou mesmo no calote puro e simples. O tecido empresarial que se envolve com o Estado possui de antemão uma filtragem que o torna mais sólido do que a concorrência: só sobrevivem os mais fortes.
Por outro lado, o estrangulamento do sector privado disfarça os deslizes financeiros de algumas empresas públicas e até as pode tornar mais competitivas. É o caso da Caixa Geral de Depósitos, onde muitos dos empresários entalados pelo buraco orçamental depositam as suas esperanças e levantam mais tarde o penhor da gratidão estatal. Sim, são penhoradas e ganha a Nação (o principal credor). Ou então começam a cortar nos salários e a malta aumenta logo a produtividade (como no exemplo do Vitória de Setúbal).

É genial, a visão estratégica do Estado Português. Aliás, o distrito de Setúbal conhece bem o resultado da simbiose entre os sucessivos governos e a iniciativa privada, com a Auto Europa a prosperar à conta de pequenos apertões nos testículos da economia nacional que lhe rendem milhões em benefícios fiscais e domesticam a contestação laboral com papões de encerramento e consequente desemprego de milhares de pessoas. Um must da gestão de influências, manda quem pode e o resto amocha.

Mas já estou a afastar-me do tema principal.
O comportamento inexcedível dos futebolistas sadinos só pode ser atribuído ao facto de os rapazes jogarem à bola por prazer. Não pelos salários milionários (que veêm por um canudo), mas pelo gozo simples do futebol de rua. Não é à toa que as(os) vitórias surgem na Primeira Liga. E se nalguns casos a malta especula com os apitos dourados e outras suspeitas infundadas, no caso do Setúbal é evidente que o sucesso não passa pelas luvas. Ou então, também a arbitragem funciona melhor quando está em causa apenas a verdade desportiva e temos reunidas as condições para uma evolução sem precedentes do futebol lusitano.
Em poucos anos, nem o Real Madrid fará frente a este Vitória. Bem podem ir reservando os bilhetes de volta no TGV (se já houver na altura), caso lhes calhe defrontarem os nossos rapazes de um dos distritos mais pobres de Portugal.

Sem pilim, os portugas funcionam melhor (como era evidente no regime salazarista). Ninguém paga a ninguém e a coisa funciona com base na motivação pessoal, no traquejo que se adquire a esticar o pouco que vai pingando. E é esse afinal o segredo que vamos ensinar à Europa do futebol.
E não só.

Digo eu... (que de política não percebo mesmo nada).
publicado por shark às 10:40 | linque da posta | sou todo ouvidos