A POSTA NOS LÍDERES SEM COR

A questão (recorrente) do Freeport Alcochete parece constituir mais uma daquelas situações em que as suspeitas de cambalacho tresandam aos olhos da população que percebe, em sinais como a presença de familiares em negócios dependentes do aval de ministros, a panelinha nunca provada do costume que apenas parece servir os interesses de quem se movimenta melhor no seio de uma classe política enxovalhada (logo, enfraquecida).

Ou seja, todos ficamos a saber que é mais do que provável existirem jogadas de bastidor em benefício de quaisquer políticos no poder ou dele afastados (o BPN ainda tem muitas histórias por contar…) e conhecemos o final da história, o da impunidade dos directa ou indirectamente implicados em cada novo escândalo de pólvora seca.
 
Destes guiões cíclicos na política como em outros domínios da sociedade portuguesa apenas consigo beber pela rama.
Olho para os políticos que atingem determinados patamares do poder e assumo-os como gente capaz, pelo menos capaz de se destacar do meio de uma multidão com idênticas ambições. E depois interrogo-me acerca das suas motivações, as reais, para abdicarem do sossego de uma posição confortável na vida, longe da ribalta mas com influência nas suas áreas de actuação, habitualmente em funções mais bem remuneradas (este aspecto não é, de todo, irrelevante).
 
Claro que como qualquer cidadão e eleitor gostaria de poder acreditar no apego à causa pública, no amor pela Pátria ou quaisquer outros valores arcaicos que apenas adornam o estatuto dos governantes e são desmentidos por vislumbres de ganância e de compadrio como o caso Freeport evoca. Mas não posso.
O comportamento dos políticos no poder é já descarado, tamanha a sucessão de flopes que têm resultado das poucas fugas de informação ou daquilo que resulta do jornalismo de investigação que temos (tão fraquinho que as duas realidades praticamente se confundem), e a apatia generalizada tende a perpetuar este estado de coisas na realidade do país.
 
É ponto assente que nesta fase do campeonato qualquer cidadão com dois dedos de testa e alguma atenção ao que acontece à sua volta há muito deixou de acreditar na alternância democrática, ou mesmo na relevância das ideologias no sentido do seu voto (os que ainda insistem, e bem, nesse instrumento de poder popular).
Aos poucos torna-se claro que mais importante do que a cor partidária ou mesmo a corrente política que representem, os nossos líderes devem ser avaliados em função do respectivo carácter.
Em última análise, uma pessoa de bem, virtualmente incorruptível, é sempre a pessoa certa para a função.
 
O caso português
 
No caso concreto de Portugal, a minha conclusão anterior ainda ganha mais força perante a óbvia submissão ao que possa emanar das instâncias comunitárias. A esquerda e a direita pouco ou nada interferem nas decisões finais que mais mexem com o nosso dia-a-dia, pelo que de pouco nos vale a troca do PS pelo PSD ou vice-versa. E estou certo que o mesmo se aplicará aos restantes partidos com condições para chegarem ao poder de alguma forma. Interessam mais as pessoas do que as ideias, pois nenhuma ideia é concretizável sem pessoas em condições para a aplicarem na prática.
E por condições entendo as que derivam da soma da capacidade individual com a motivação para a aplicar em benefício de terceiros, de uma nação.
O caso Freeport serve apenas para nos renovar a certeza de que algo de estranho se passa e que esse algo de estranho explica boa parte das falhas que encontramos no funcionamento do país, na sensação desconfortável de que a fanfarra Magalhães apenas encobre os sinais que se multiplicam de uma decadência cujo desfecho apenas podemos delinear sem rigor. O preço, esse sabemo-lo elevado e sentimos na pele as suas consequências, a cada dia, tal como o constatamos na mais do que evidente perda de competitividade relativamente aos países de leste (algo que nos envergonha, em face da realidade do passado destes novos competidores na comunidade europeia que integramos).
 
Por isso me entusiasmam cada vez menos as discussões “políticas” acerca de factos consumados, por contraponto à dissecação exaustiva do perfil de quem, por princípio, não pode nem deve ter algo a esconder no seu passado em matérias relevantes, que possam influenciar o seu desempenho quando ocupam determinado cargo a partir do qual podem influenciar, e de que maneira, o desenrolar das nossas vidas e, acima de tudo, das de quem terá o futuro condicionado pelas asneiras que permitirmos nesta altura.
De um potencial Primeiro-Ministro interessa-me mais saber se possui um passado isento de mácula em matérias sensíveis como a corrupção, a ganância ou qualquer outro sinal de alarme relativamente à sua conduta profissional.
 
Sobretudo interessa-me perceber se estou perante alguém com um carácter firme, de convicções fortes e bem sustentadas. Com amor comprovado pela Pátria que formamos e lhe compete servir, intocável do ponto de vista ético e com um entusiasmo e um espírito de missão que consiga ler-lhe no brilho do olhar.
 

Essa pessoa terá o meu voto e o meu apoio. Sem condições.

publicado por shark às 16:07 | linque da posta | sou todo ouvidos