NESTE MEU TEMPO(RAL)

Ondas sucessivas que rebentam pouco abaixo de onde assento os pés. Firme na rocha que aguenta o impulso da água para reclamar o que sente como o seu lugar no futuro leito que a terra lhe ocupa.

O mar às cabeçadas no paredão, mesmo abaixo de onde encontro o chão onde pouso os dedos para sentir a firmeza necessária para acreditar numa qualquer forma de solidez.
 
Na praia a areia de rocha que o mar desfez, como pó, e eu sinto um nó na garganta quando me apercebo insignificante no contexto e me reconheço a caminho da terra que serei um dia quando o meu tempo decidir que acabou.
As marcas das passadas, as marcas ali deixadas à mercê dos elementos que me ignoram em cima de uma rocha com destino traçado pelo mar enfurecido quando o vento decide aliar o seu sopro à força colossal do companheiro na paisagem que contemplo como uma miragem, tentando rasgar com a força ilusória do meu olhar o horizonte escuro como breu em busca do sol.
As marcas apagadas pela subida da maré, cada sulco deixado pelo meu pé enquanto caminhava rumo a este local onde as ondas, sucessivas, rebentam como granadas pouco abaixo de onde resisto com a rocha, de onde assisto à demolição implacável desta faixa litoral.
 
E sinto-a tão igual à que o tempo me provoca, essa erosão que me desloca aos poucos para uma nova dimensão daquilo que possa, tão insignificante, representar para lá do fim que perspectivamos como uma passagem para outro lugar, como pó, como a areia que a rocha sangrou na sua luta interminável com o seu inimigo natural.
O tempo, que se associa a um elemento apenas com o fito de destruir qualquer veleidade de quem sonhe a eternidade que só a ele compete usufruir no cumprimento da sua função, presente na minha cogitação solitária acerca do futuro que apenas me permite ambicionar, milagres da fé, ou do passado que cuidará de apagar como a marca do meu pé, egoísta, com a subida da maré que ameaça agora engolir-me se não cuidar de fugir para outro lugar, desertor, deixando ao rochedo a missão de enfrentar o medo da erosão a sós.
 
Fujo acobardado para o meu exílio num ponto mais elevado da falésia, tentando adiar um pouco mais a última viagem enquanto me convenço de que se trata de coragem esta vontade de viver que é uma forma alternativa de combater o tempo invasor.
Enfrento-o armado com o amor que me prende afinal a esta realidade intemporal como a quero acreditar, do cimo deste ponto estratégico de observação do horizonte no meu coração que insiste em bater acelerado quando me sinto apaixonado e descubro um sentido para a existência porque tomo consciência do meu papel.
 

E então consigo ver o sol, brilhando na crista das ondas sucessivas que rebentam sem cessar um pouco abaixo do ponto onde decido enfrentar o agressor, numa manobra arriscada, sulcando palavras de amor na areia daquela praia isolada (na memória de cada história por mim contada), atrevido, insistente, mesmo sabendo que é tempo perdido, indiferente, este tempo investido a imortalizar cada paixão que protagonizo quando perco o juízo e me acredito capaz de contrariar o tempo que irá apagar, com o auxílio da brisa e do mar, cada uma das palavras e das recordações desta insignificância que sou eu, quando pararem de bater todos os corações que algum dia aceleraram o meu.

publicado por shark às 12:33 | linque da posta | sou todo ouvidos